31/01/15

Gastronomia como pornografia


Usei a expressão “gastronomia pornográfica” e me pedem para explicar.

Todo mundo sabe mais ou menos o que é pornografia e, qualquer que seja a sua definição filosófica, ocorre que ela só existe de forma pública; a sua repressão consiste em empurrar aquilo que ela exibe para a esfera privada. “A pornografia é o erotismo dos outros”, diz-se. Entre quatro paredes ela será sempre o erotismo de alguém.

Por mais variadas que sejam as fantasias expressas na “pornografia”, considerada “perversão” ou não, o seu aspecto mais abjeto é a exclusão. O erotismo dos outros não é inclusivo e, por isso, é pornográfico ao se tornar público. Sua expressão pode criar um outro jogo complementar - entre exibicionismo, narcisismo, e voyerismo - mas a sua essência não muda. E ela sempre tem os seus limites morais, como a pornografia inadmissível, infantil.

Usei a expressão “gastronomia pornográfica” apenas para designar os excessos da vida burguesa exibidos publicamente como a dizer: você não faz parte. Tipo “comer o pão na frente dos pobres”. Há, ai, uma subversão no próprio conceito de gastronomia, visto que ela é um convite ao “melhor”, e não uma exclusão; um discurso sobre o comer destinado a todos. E é por isso mesmo que, hoje, o marketing promove a “gastronomização” do banal.

É pornografia quando a “gastronomia” é colocada em circulação - no FaceBook ou no Instagram - como exibicionismo; prática que, ao mesmo tempo, reforça a ideia de que não existem enlaces sociais possíveis entre quem se expõe e quem vê. Uma taça de Château Haut-Brion pode ser superior ao salário mínimo.

A pornografia é a supressão do espaço do encontro tendo em vista o prazer. Dá o que pensar uma sociedade onde a sua elite já não se satisfaz com o consumo conspícuo que lhe é típico; quando precisa transforma-lo numa espécie de “potlatch” do luxo, agora tecnificado e expandido pelo Face Book ou Instagram.

É um erro pensar que seja apenas uma coisa provinciana, “caipira”; é socialmente perversa. Talvez porque as massas urraram na rua, na Revolução Francesa, a burguesia europeia se fez tão discreta nos seus hábitos excludentes.

18/01/15

Post-jabá


Às vezes - quase sempre - me vejo a imaginar coisas inúteis. Como a cena de um casal de velhos ingleses, saltados de um quadro de Botero, postados diante da televisão, a assistirem um infindável documentário da BBC sobre cultivo de pepinos. Não trocam palavras, como não trocam de canal. Ao lado, sobre uma mesinha, duas taças de gin tônica preparado com Hendrick´s. O gin os une há pelo menos trinta anos e, imediatamente, ao programa de Tv. A água tônica, rememoração inconsciente do colonialismo triunfante dos tempos da rainha Vitória. Na verdade, é o pepino que une o casal, o gin e a história ao documentário, naquela vida solitária.

Sentem nostalgia tremenda frente àquela horta de pepinos que invade a casa noite alta. Suspiros. Como quando se enamoraram e, de pub em pub, foram escolhendo suas preferências alcoólicas e estacionaram no Hendrick´s, no auge da paixão. Nunca mais abandonaram aquele drink e, hoje, a cada gole, uma lembrança com furor. O amor, ou evapora na paixão ou se conserva no álcool. Mas a escolha da sua modalidade é que dá qualidade aos suspiros. Identificar o zimbro, o cominho, a casca de limão, laranja ou grape fruit; o pepino ou a pétala de rosas, é como explorar o corpo; rememorado-o fresco sob o amargo do quinino e da história.

O gin é uma metáfora e, ao mesmo tempo, uma metonímia, esconderijo das emoções inteiras ou em frangalhos. Se não fosse o gin, o alcoolismo seria uma doença. E o Hendrick´s está para os gins como Chanel nº 5 para os perfumes. Viciam na apoteose.

Está muito distante da brutalidade insípida da vodka, que esfrega nossa cara no chão da pós-modernidade. Nem tem aquele amargor agradável do negroni, que, dia a dia, gole a gole, pontua as pequenas vitórias que nos levam, inexoravelmente, em direção à grande, inapelável derrota.

Para os adeptos das bebidas de ocasião, talvez haja aquelas mais adequadas. Como um bom rum envelhecido com um charuto Cohiba. Ou um conhaque quando se mordisca chocolate, após uma refeição memorável. Mas o gin, só o gin, irmana almas. Não é possível rememorar um gin tônica, exceto por ter sido partilhado com alguém especial na ordem das coisas. “Tomávamos gin”, sempre ficará impresso na lembrança, desdobrando uma cadeia de recordações amarfanhadas nas dobras da alma.

Aqueles que inventaram o Hendrick´s talvez não soubessem, mas criaram uma ponte entre nós e a natureza, entre o corpo e a alma, inventaram a comunhão entre o desejo e o pecado, aboliram a culpa da existência à Botero; tornaram possível aquela vida besta diante da Tv.

16/01/15

Tirando férias do leitor

Comida de hoje parece estar de férias. A capa ensina como fazer arroz!!!!! (e recomenda fazer com óleo de Canadian Low Acid, dito  óleo de "canola"; mas garanto que qualquer óleo serve, inclusive gordura de lambari!). Quatro páginas esquálidas; dentro, uma seção de "fichas de Elle" que ensinam a fazer panqueca, cupcake, omelete, chantilly, feijão, tapioca, brigadeiro, macarrão ao "sugo". 

Um suplemento de culinária não precisa rebaixar o leitor a essa indigência só porque está de férias. Suspende a publicação e pronto! Não, não... seria perder Nina Horta que nunca tira férias. E, nesse número, também a gourmet-viajante Alexandra Forbes que nos anuncia que os chefões do mundo todo estão se livrando de adereços não-culinários em seus restaurantes. Desgourmetização in process...

14/01/15

Nem só do acarajé e do tucupi depende o vigor da cultura alimentar brasileira

O “Brasil do acarajé e do tucupi” está no campo de interesse do Ministério da Cultura, disse o ministro Juca Ferreira no seu discurso de posse. Na ocasião, citou também que a “cultura alimentar” estará no foco de atenção da pasta.

Que a “cultura alimentar” seja equiparada a outros focos de atenção é bastante positivo. A expressão remete à uma recente alteração nas destinações do Fundo Nacional de Cultura (FNC). Juca advertiu ainda que a “cultura brasileira não pode ficar dependente dos departamentos de marketing das grandes corporações”, o que parece uma reserva quanto ao formato atual da Lei Rouanet e as distorções que tem introduzido nas práticas de financiamento público.


E ele também reafirmou “o compromisso com o Plano Nacional de Cultura (PNC), instrumento central de planejamento de médio e longo prazo das políticas culturais”, o que, em termos de “cultura alimentar” quer dizer absolutamente nada: simplesmente ela não está contemplada no PNC.

Resumindo: há uma abertura federal em relação à “cultura alimentar” mas ainda faltam planos, uma política pública clara, de sorte que ainda estamos ao sabor do mercado e seus reclamos sem propósito.

Que o ministro tenha se referido ao “acarajé” e ao “tucupi”, assim como a Yemanjá, Oxum, Tupã e Jesus, mostra como a força da tradição, da folclorização, se impõe ali onde faltam planos mais ousados, criativos e modernos.

Quer dizer: há muito trabalho pela frente, se não formos nos contentar com os afagos que parece se buscar na Lei Rouanet.

08/01/15

Só se formos bundões não salvaremos o Mercado de Pinheiros!

Artigo publicado no site da revista Cult .