20/09/2009

A carne, a banana e o “Estado da irrelevância máxima”

O Estado se converteu numa instituição-pentelha e totalitária. Cada vez mais se imiscui na vida do cidadão naquilo que, sob o liberalismo, era considerada a “esfera privada”: se você fuma, como e o que você come. Ao se tornarem “questões públicas”, vira uma chateação, e toda chateação alheia é uma limitação dos direitos individuais.

Depois do “Estado mínimo”, do “Estado da tolerância zero”, eis que chega o “Estado da irrelevância máxima”, que consiste na regulamentação rigorosa do que não tem qualquer importância.

Quem leu o jornal viu, hoje, que a Prefeitura de São Paulo vai apoiar o boicote da Ong-da-salada (a "Sociedade Vegetariana Brasileira") à carne. O movimento quer “salvar o planeta” e propõe aquelas conscientizações sintéticas, como a “Segunda-feira sem carne”, na qual a Prefeitura embarcou. Ela não "manda", mas "sugere" que você faça o mesmo. Não sei se faltará bife nas creches e escolas amanhã, mas o Prefeito não queria cortar custos? Então.

E tem mais: a banana não poderá mais ser vendida como veio ao mundo, em cacho. Escrevi uma carta-aberta ao Deputado autor dessa lei, que saiu publicada hoje no Estadão (Suplemento Aliás, página J7). Eis a íntegra:

Caro Deputado Samuel Moreira,

O senhor é um homem esperto. Conhece os restaurantes “a quilo” e resolveu nos obrigar a comer banana a quilo. Sei que não é homem da indústria de balanças. Mas se mostra um forte aliado da força da gravidade.

Quando eu era menino, no interior, comprava jabuticaba por litro. Nas feiras do Nordeste e Norte (como no Ver-o-peso, em Belém) ainda se vende farinha por litro! E não é que, aonde se ia justamente para “ver o peso”, não dão pelotas para ele?

Mas o senhor encafifou que peso é melhor que dúzia, litro, garrafa, baciada. Eu entendo: tem gente que prefere volume ou unidade, e o senhor é homem do peso e tem peso político!

Fico preocupado porque, vai que a moda pega, vão vender melancia por peso também, e adoro quando vejo a liquidação por unidade! Como fatias, faço suco, guardo pedaços para o dia seguinte.

O senhor talvez não saiba, mas 1874 e 1875 foram anos de revoltas no Nordeste. Em centenas de vilas, a população botou para quebrar. A chamada revolta do “Quebra-Quilos” - só porque mudaram o sistema de medidas, deputado! Mas o senhor conta com o espírito cordato do paulista, não é? Recentemente começou-se a pesar os pãezinhos e não houve “quebra-padarias”.

E notei que o senhor não vai a supermercados nem feiras. Nos primeiros, já vendem banana a quilo. É sem graça. Mas dá gosto ver aquela negociação na feira: uma “dúzia de 13”, até “dúzia de 15” na hora de xepa. Pelo mesmo preço, deputado! A “preço de banana”! O gostoso no jogo é que os dois lados acham que levaram vantagem. Agora, o senhor nos obrigará a pagar pelo pedúnculo e pela casca, que nem entravam nos cálculos. O senhor encareceu a banana e acabou com a diversão.

São Paulo está ficando muito chato, deputado. Já não se podia fumar, agora não se pode comprar banana por dúzia. Só nos restará pentear macaco. Se o IBAMA deixar.

1 comentários:

Cris Couto disse...

Dória,
Sei que você escreve todo dia um pouquinho (o que invejo tremendamente), e eu estou, até, tentando fazer isso: o capítulo número dois da minha tese. Inpirei-me em você: todo dia, um pouquinho. Agora, este texto está uma pérola, irretocável! que inspiração, heim? Me deu vontade de sair na rua defendendo as bananas e seus cachos. São Paulo está ficando sem graça, mesmo. Veja os supermercados, por exemplo. Nivelam por baixo. Você sabe que agora eu tenho que sair daqui do Campo Belo prá ir até o Santa Luzia comprar uma café (de qualidade)? Porque por aqui, deixaram de oferecer. Deve se rporque não podem vendê-los a preço de banana. Chato à beça.

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