12/03/2012

Reflexões à margem do Guamá

As chuvas penetram em quase todos os poros do dia, o rio fica revolto e a maré sobe bastante. Talvez por isso seja um espetáculo incansável ficar sentado nas Docas, observando o Guamá, enquanto a água que cai vai aos poucos engrossando as águas que correm para lá e para cá, conforme a maré.

Melhor ainda quando se pode conversar com amigos sobre as grandiosidades da Amazonia, como aconteceu ontem, numa mesa do restaurante Lá em Casa, sob a hospitalidade impecável de Tania e Joanna Martins, viuva e filha do saudoso amigo Paulo Martins - herdeiras fiéis da tradição de bem receber. Estavam também Ima Vieira - conhecedora, como poucos, daquela vastidão, pesquisadora e ex-diretora do Museu Goeldi - Rodrigo Oliveira e Julien Mercier.

A Amazonia sempre parece aquela coisa imensa da qual conseguimos, no máximo, um naco de informações entre uma mordida e outra numa fruta que comemos pela primeira vez. Tudo tem sabor de novidade, mas de uma novidade que permanecerá assim, até que, em nova viagem, possamos conquistar mais um milímetro da sua imensidão.

Mas as conversas revelam também um movimento que mal percebemos. As mandiocas e suas farinhas, por exemplo. Variedades imensas de mandiocas, umas mais propícias ao tucupi do que outras. Farinhas mais ácidas, mais granuladas, outras mais finas e menos ácidas. Tudo depende da terra e das mãos que manipulam a planta.

E aos poucos vai se impondo a noção “vantajosa” de produtividade. Mandiocas mais produtivas vão substituindo as menos produtivas no feitio das farinhas. As primeiras, as mandiocas brancas; as segundas, as amarelas, mais “venenosas”. Rareia a farinha dessas, e surgem as farinhas brancas, coloridas de amarelo com corantes artificiais. O tucupi? Também já há testes para saber se é autêntico ou colorido artificialmente. Uma coisa chocante para quem viaja tanto em busca de autenticidade de um Brasil profundo essa lenta corrupção das suas carnes.
E aquela banda maravilhosa de tambaqui que comemos no Remanso do Bosque? Animal de seus 16 quilos, selvagem, quase não existe mais. Deferência enorme do anfitrião, Thiago Castanho.

As pimentas de cheiro? Vão rareando também aquelas com maior picância, predominando as mais suaves, por seleção artificial. E a Amazonia vai aos poucos se transformando, gota a gota, como as gotas de chuva transformam o Guamá: imperceptivelmente.

A Rodrigo, Julien e a mim só resta admirar aquilo tudo que ficamos sabendo, olhando o Guamá passar indiferente às nossas presenças curiosas.

1 comentários:

Joanna Martins disse...

É Doria, essa é uma triste realidade, que combatemos dia-a-dia, no Lá em Casa e no fornecimento de produtos para outros estados do país. Uma luta incessantemente pela valorização do produtor q busca trabalhar a qualidade e não apenas rentabilidade. E estamos juntos nesse processo.

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