17/01/2013

Quae sera tamen gastronomia!


Bem fraquinho o Comida de ontem. Já o Paladar é salvo pela excelente capa, onde Luiz Horta dá o roteiro para se atravessar bem - acumulando vantagens - a atual estação de bota-foras nas importadoras de vinho. Dicas de como comprar, evitando roubadas, e o que comprar. 

Mas uma matéria em especial do Comida vale ler e comentar: “Minas Gerais representa o Brasil no Madrid Fusión”, assinada por Josimar Melo.

A palavra “representar” significa, obviamente, estar sob os holofotes. Ninguém deu mandato a Minas para “representar” outros regionalismos. Nem há nada similar no histórico do Madrid FusiónTrata-se de uma encenação. Mas em vésperas de Copa não é difícil aquilatar a importância econômica desse destaque de marketing. Josimar mostra como a “costura” desse destaque teve o impulso decisivo da Embratur e do próprio governo de Minas Gerais: “entre outras iniciativas, trouxe os organizadores do evento para o festival de Tiradentes, em agosto, e os levou para conhecer a cozinha do Estado. O governo dispôs-se a comprar a cota de patrocínio que garantia o espaço e o destaque desejados”. 

A Embratur acordou para a importância do mundo dos negócios culinários à sombra do Estado desde o último Festival Ver-o-peso, quando lá aportou uma comitiva do órgão na condição de observadores. De lá para cá, se pôs em movimento e começou a abrir a burra.

Em conjunto, governos estadual e federal estão bancando uma revoada de cerca de 80 pessoas a Madrid. Para não ficar uma coisa escancaradamente “mineira”, sofrer críticas aqui dentro. a Embratur vai servir no seu estande amostras de “cozinhas do Brasil”, e leva também chefs de outras regiões. Alex Atala apresentará “A cozinha pré-Portugal”. Irão também Mônica Rangel, Cesar Santos, Flávia Quaresma, Carlos Ribeiro e Tereza Paim.



O difícil é entender  como uma cozinha, que prima e se orgulha da tradição, é “homenageada” num evento cujo slogan é “A criatividade continua” (suponho que queira dizer “continua mesmo sem Adrià”). Mas a hora da estrela sempre chega, e o importante é que fica clara, pela matéria de Josimar, a construção politico-econômica da “cozinha mineira” em Madrid, assim como tantas cozinhas mundiais. A cozinha coreana, por exemplo, vem buscando destaque mundial impulsionada pelo Estado e foi igualmente “homenageada” ano passado no Madrid Fusión. Portanto, foi ao “modelo coreano” que Minas Gerais aderiu com tudo.

O evento reforça a percepção de que a “cozinha mineira” é uma construção ideológica que, como já mostrou a socióloga Monica Abdala, começou lá nos anos 1970. Tem por base o fracionamento político da unidade que existiu no Brasil colonial entre São Paulo e Minas, ocorrido em 1720. Mas a rigor não há duas “histórias” tão distintas, culinariamente falando. Poderíamos dizer que uma só cozinha abarca Minas, São Paulo, parte do Centro-Oeste e parte da região Sul. Mas, como “negócio”, Minas vem dando um baile nos outros estados desde os anos 1970. É inegável. A coreanização do seu marketing internacional é mais um passo nessa direção.

Sem dúvida o Madrid Fusión foi um evento que apresentava as vanguardas mundiais, referidas especialmente à linha de investigação inaugurada por Adrià. Dai seu prestígio e sua importância histórica. Não é mais isso. E como não poderia deixar de ser, fala mais alto a força da grana, os interesses nacionais e regionais, os leilões de patrocínio, etc. 

Pessoalmente, sou mais interessado nas investigações gastronômicas que se fazem no Brasil, independentemente de regionalismos. Investigações que destacaram Atala e hoje destacam valores, como Helena Rizzo, Thiago Castanho, Roberta Sudbrack e tantos outros. Mas, afinal, nem tudo no mundo culinário é gastronomia. Saravá!

3 comentários:

Léo disse...

Dória,
O Comida me lembrou o Folhinha, que nas férias publicava receitas para crianças. Essas receitas terem mudado de caderno é um sinal dos tempos em que vivemos.

carlos alberto doria disse...

Léo, sem falar nos diminutivos que pululam nas páginas do Paladar!

Anônimo disse...

Нey νеry nicе blog!

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