20/05/2013

A revirada na Virada Cultural - II (conclusão)


E a Virada aconteceu. Jornais, sensacionalistas, destacam a violência. Mas Chefs na Rua, até por sua localização, tinham a serenidade de uma quermesse.

As 30 barracas, ofertando comidas bem variadas - que iam do prosaico strogonoff ao somosa indiano - com Jefferson Rueda vendendo as suas propagadas 5.000 porções de carne de porco, não forneceram exatamente um panorama da culinária paulistana mas, sim, as várias estratégias de cozinheiros estabelecidos para fazer aquilo que acreditam do gosto popular. Muita coisa eu jamais experimentaria. 

E está claro que não houve uma "curadoria de comida" mas, sim, de chefs. A "diversidade" mais refletia a imaginação dos escolhidos do que a riqueza própria da culinária paulistana, já testada e comprovada no dia-a-dia mas que é preciso redescobrir, sistematizar - o que dá trabalho.



Portanto, talvez o maior ganho para cada cozinheiro que lá esteve tenha sido o "teste de sensibilidade": isso vende, isso não vende. Não exatamente para um “povão”, mas para uma classe média que é bem maior do que aquela que eles são capazes de abrigar em seus restaurantes.

Mas qual o ganho para a cidade? A percepção de que, realmente, comida se converteu em espetáculo e que, portanto, há ai um caminho a trilhar, independente da sazonalidade das Viradas. E a constatação de que a discriminação espacial entre a comida dos “chefs” e a comida de rua - aquela confinada ao Largo do Tesouro, sem ser considerada um “tesouro” - só se deve a preconceitos das autoridades municipais.

Quem andasse pela Av. São Luiz sentiria a falta do yakisoba, do sanduíche de pernil, do pastel, da garapa e de tanta coisa boa que se come na cidade, nas feiras, nas quebradas; sentiria a falta de barracas como as da Nossa Senhora de Achiropita ou das várias quermesses de bairro das igrejas que ainda mantém a tradição e assim por diante. 

Enfim, houve uma elitização desnecessária da oferta de alimentos, diminuindo e dificultando as comparações próprias de um ambiente gastronômico que se quer instaurar na cidade. A causa disso foi a projeção, sobre o terreno da alimentação, do mesmo esquema que a Prefeitura usa para as músicas, por exemplo, separando os “palcos” por gêneros. 

Será muito bom que se aprenda a lição: que se concentre barracas misturadamente; ou que se disperse barracas por todo o centro, também misturadamente. Numa cidade tão cruelmente segregadora a mistura é a palavra de ordem democrática.




2 comentários:

Rildo disse...

falou tudo Dória. Pena que há tantos ouvidos moucos na administração pública.

Welton Bondani disse...

Concordo com você Doria na questão da divisão das barracas, ouvi sim preconceito das autoridades, mas "chef na rua" apesentaram sabores ainda desconhecidos no paladar de muitas pessoas.

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