04/11/2015

O chef-escuderia


 “O prazer muito vira medo, o medo vai vira ódio, o ódio vira esses desesperos?” (Guimarães Rosa).

Silvio Lancelotti foi, se não me falha a memória, o precursor do chef-escuderia. Aparecia na Tv com dolmã bordado com várias marcas de alimentos industriais, como as massas Barilla, parecendo um corredor de formula 1.  Tinha muito prestígio, e escreveu uma coleção de livretos de receitas para a LP&M. Publicou também um romance: Honra ou Vendetta. E comentava futebol. Foi um fundador da Veja.

O modelo foi e é seguido por muitos chefs-publicitários de marcas. Agora, porém, a modalidade vai chegando na chamada “alta cozinha”, com chefs, chefinhos e chefetes se esmerando em promover café, presunto, caldo de carne, molho em lata, miojo, margarina, seja o que for. É um novo momento da gastronomia? Sim, mas sobretudo um novo momento da publicidade.

Um momento em que o marketing descobriu que a carreira do chef pode ser transformada em mercadoria de outro tipo, sendo deslocada da cozinha para a midia. Talvez o antigo modelo tenha sido revalorizado pelo mega empreendimento da água San Pellegrino, o pioneiro 50 Best. E o MacDonald´s convida chefs para assinarem suas versões do Big Mac... Enfim, há chefs para tudo e no horizonte do marketing está a aposta numa certa capacidade de convencimento dos chefs que ela possa ser transmitida à marca industrial patrocinadora.

Mas hoje há uma contradição insanável em tudo isso: a maioria dos chefs, chefinhos e chefetes se fez propagando um discurso baseado no artesanato, no “natural”, no “saudável”, no “sustentável” e, eles mesmos sabem, seus novos clientes institucionais encarnam justamente o contrário disso. Mas, honestamente, eles são capazes de dizer que, em seus restaurantes, não usam os produtos que anunciam. Isso acentua na “cena gourmet” o caráter de farsa.

É cada dia mais difícil imaginar que um chef, em sua carreira, se contente em ficar no seu canto, cozinhando cada vez melhor, buscando encantar sua clientela que crescerá lentamente, à margem dos meios de comunicação de massa povoados de fantasmas.

1 comentários:

Mariana Leme disse...

Caro Carlos, parabéns pelos textos, são muito interessantes!
Sou aluna de graduação da USP e gostaria muito de convidá-lo para a minha banca de TCC. Posso enviar-lhe um e-mail contando mais detalhes? Para qual endereço?
Muito obrigada!

Mariana

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