12/05/2009

Buenos Aires: minhas memórias do futuro

Tenho muita intimidade com Buenos Aires. A partir dos 18 anos ia todo ano, duas vezes ao menos. Passava mais de mês por lá durante as férias. Olho minha estante de livros e vejo quantos adquiri naquela cidade: toda a obra de Borges, de Cortazar, de Lezama Lima e tantas outras coisas memoráveis, muitas delas em edições populares, em papel jornal, adquiridas nas bancas do metro.
As centenas de cinemas da Lavalle também eram imperdíveis. Quantos filmes autorais que não passavam aqui e lá eram disponíveis?
Conheço o metro em detalhes. Cada estação principal e o entorno. Sei que, saindo na estação Castro Barros, há o café Violeta (agora restaurado), e assim por diante. Esta experiência recorrente se interrompeu ao tempo da ditadura. Depois, com a redemocratização, minhas idas rarearam. Mas é impossível deixar de lado algo assim tão familiar.
Hoje, já não vou a Buenos Aires à busca de novidades, mas de confirmações. Visita a visita, pouca coisa se acrescenta ao roteiro usual. Na ultima visita, me dediquei ao que resta dos velhos mercados. E mesmo roteiros modernos, como o do italiano Pietro Sorva - enormíssimo cronópio, como diria Cortázar - sobre os bodegones da cidade, só confirmam as velhas escolhas. Mesmo lugares que não conhecia parecem estar lá à espera faz décadas. É uma sensação única que só Buenos Aires oferece na dose correta.
Mas nem tudo posso confirmar como gostaria. Na área da gastronomia há algumas mudanças significativas. O El Gato Negro certamente decaiu ao diminuir a variedade de especiarias e incluir um show de música ao vivo. Só permanece o mesmo o mal-humorado gerente. “Agüento há 20 anos o mal-humor desse homem!” reclama, conformada, na fila, uma senhora bem vestida em casaco de pele.
Acho que os restaurantes simples ainda são o ponto alto da cidade. Ainda não cheguei à conclusão, por exemplo, sobre qual a melhor milanesa de ternera: do Zum Edelweiss ou do Munich? O fato é que nem se pensa que uma milanesa possa ser de outra carne. E em ambos os restaurantes acho admiráveis aquelas senhoras que entram e beijam os garçons, como se fossem da família. Ou observar os garçons do Munich, após a jornada de trabalho, sentados às mesas dos clientes, comendo um bom bife com um daqueles vinhos tradicionais, como o Rincón Famoso. São coisas de uma cidade onde o comer reveste-se de uma dignidade rara, herdada dos europeus, sem aquele servilismo que a escravidão deixou como marca no serviço daqui. Saudades de El Pulpo, que fechou...
Entre as novidades (comparando ao ritmo frenético de São Paulo, são “novidades velhas”) gosto da Brasserie Petanque. Um francesinho jeitoso, bem sacado, esperto, agradável e de comida bem razoável. O dono consegue até o cogumelo morille fresco, que diz cultivar na Patagônia. E possui uns vinhos argentinos garage, exclusivos e bons. Gosto do Sucre, apesar do seu ar novo-rico e do dramático Casa Cruz (o veludo vinho, a luz focal...), da mesma “família” de empreendedores. Gente que banca o Arturito por aqui, segundo ouvi dizer.
O Club Español, na Bernardo de Irigoyen, foi recentemente restaurado e vale uma visita. Se não pela comida, pelo ambiente suntuoso em perfeito estado de uso. E se pode comer uma boa centolla, se pedir para o cozinheiro fazer com ovos mexidos, em vez da bechamel sofrível conforme consta do cardápio. Dentre os “étnicos” também gosto de El Casal de Catalunya.
Aprecio o aristocrático Oviedo. Logo na entrada, uma estante com vários livros de Escoffier anuncia o partido gastronômico. O cardápio é correto, bem executado e o serviço impecável. Todo mundo lá tem cara de quem joga golf, pratica equitação ou pólo, ou tudo isso. Possuem os seus “countries” nos arredores de Buenos Aires onde passam os finais de semana. Bem, mas a centolla também é anunciada com bechamel... Por que será que os argentinos associam centolla a bechamel?
O único lugar onde como uma centolla com uma simples maionese caseira é o Miramar, na esquina da San Juan com Sarandi. Ele já deve ter tido os seus dias de glória, mas ainda mantem certa graça – como a tábua de cozinha onde são afixados em tiras de cartolina, com durex, os pratos do dia. Ela é deixada à mesa como cardápio e, vez por outra, o garçon passa e arranca impiedosamente uma tira. Ao olhar de espanto do cliente, explica: “No hay mas!!”. Centolla e viognier da Escoriuela Gascon é uma excelente pedida.
No domingão-do-faustão, uma pizza no Los Imortales da Corrientes é uma experiência muitas vezes superior à ida ao nosso Speranza. Boa mussarela, excelente tomate! Embarco amanhã para conferir essas e outras coisas relacionadas com as memórias do futuro.

8 comentários:

Constance Escobar disse...

Adoro Buenos Aires. É uma cidade que merece muitos retornos...

JOSE disse...

O Casa Cruz não dá. Paulista que sou, aquilo parece um daqueles restaurantes-damoda-assessoriadeimprensa-comdezenasdesócios-doItaim. Fora que a comida é péssima, feita apenas para enganar os olhos. Já o estômago, coitado...

Carlos Dória disse...

José,
comi bem no Casa Cruz. Que tem um ar de Itaim, isso tem. Novos ricos argentinos também existem. Mas a teatralidade do restaurante você não encontra por aqui. O over do over...

Breno Raigorodsky disse...

E aquele restaurante retrô do clube basco que fica na 9 de julho, quase na Mayo, ouviu falar como está? Costumava ser o mais delicioso e decadente restaurante de frutos do mar da cidade e - melhor do que isso - o mais barato também!

JOSE disse...

Você tem razão Carlos Dória, também não comi mal no Casa Cruz, acho que a teatralidade do restaurante e o péssimo serviço talvez tenham me influenciado. Bom mesmo foi o La Cabrera de Palermo. A propósito, um dos melhores guias de Buenos Aires é o do http://www.vidalbuzzi.com.ar/
"la única que premia y castiga..." Algo que falta por aqui.
Abraços,
José Luiz

guirattes disse...

Carlos,
sugiro o 647 Dinner Club. Estive lá na sexta e gostei demais. Fora que a carta de vinhos é interessante, relacionando vinhos pelas características (untuosidade, frutado etc.), bem diferente da maioria que separa por uvas ou países.
Abraço,
Guilherme Girão

Bruna Maria disse...

eu tmb fui ao casa cruz e não gostei. Gostei do já batido cabana las lilas (que sufle de batatas é aquele?),mas amei a quiche e o sanduiche de salame da livraria El ateneo! Na proxima ida vou ao Sucre, que estava sem reservas qdo estive lá. Outro que quero ir é no cha da tarde do Alvear

Bruna Maria disse...

Ah, o cafe uriarte também é muito bom!

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