22/05/2009

Por um Conselho Gourmet Classificador de Latarias

Esse negócio contra o leite condensado não é contra a lata! Eu gosto da lata. Mais da lata do que do plástico, e mesmo antes de ser “ecológica” (reciclável). O vidro já está voltando, a lata voltará.
Manteiga em lata é o máximo, não é? Por isso a Aviação está ai, em todos os restaurantes da moda (apesar de começar a conciliar com a turma do plástico!). Quando fizemos o bar Nabuco lançamos pioneiramente a moda de levar a manteiga Aviação à mesa, em lata. Apesar dos dissabores com a vigilância sanitária. E a sardinha só se tornou alimento popular por causa da lata. Sem ela não chegaria ao interior, ficando à beira-mar como caranguejo...
Quando moleque, havia umas latas de presunto cru em fatias, entremeados por folhas de papel manteiga. Salgado como o diabo! Era como o presunto cru italiano chegava ao Brasil.
Goiaba em calda em lata, marmelada Colombo em lata, tudo em lata. Depois veio o verso de Gilberto Gil: “A lata luta com mais força/adeus elite do café”.
Hoje as latas são poucas. Só nos mercadinhos da Liberdade há profusão de peixes e mariscos em lata. Quando o plástico triunfou, só a periferia do mundo ficou na lata.
Mas fui levado a um bar de um irmão do Ferran Adrià, na Espanha, onde o must era a lata. Tudo de lata. Comi uma inesquecível sardinha em lata, num pão muito fino e longo, só com um fio de azeite. De morrer de bom!
Os espanhóis gostam de latas. Aspargos branquelos em lata, por exemplo. Qualquer recepção e eles estão lá, como iguaria. Chilenos e argentinos também usam bem a lata.
As conservas são um capítulo importantíssimo da culinária e as latas são seu veículo apropriado. Toda uma gastronomia pode se revelar com um simples abridor de latas. A sazonalidade dos produtos deixa de ser limitação e ganha outros temperos na lata.
Mas há abusos. Por exemplo: receitas brasileiras que sugerem milho em lata. Por que? Há milho fresco praticamente o ano todo! Por que submetê-lo à salmoura, a conservantes e, ainda por cima, perder aquele amido que solta ao ser cozido? Nada de lata, neste caso. Também nem sempre as ervilhas precisam ser em lata. Tampouco as lentilhas!
Deveria existir um Conselho Gourmet Classificador de Latarias. Como há inúmeros “conselhos” gourmets classificadores de alimentos em vidro, como o vinho.

3 comentários:

Constance Escobar disse...

Acho um charme trazer à mesa a latinha da Aviação.

cris disse...

nossa as ervilhas não podem ser em lata nem as ervilhas!?

paladar disse...

Latinha aviação é um luxo de blz retrô, e concordo que alguns alimentos são melhores em lata que em plastico, e a lata facilita transporte, validade etc...

Mas nem tudo é gostoso dentro delas, dias atrás, caminhando pela Paula Souza, encontrei em uma importadora de bebidas, um lata de polvo, conservado em óleo, comprei. Só de abrir veio a decepção com a cor do óleo, o cheiro do alimento e a textura. Juro que lhe dei segunda chance, fervendo um pouco de água e logo escorrendo na tentativa da oleosidade dar lugar a algum sabor mascarado. Ledo engano, $7 jogados no lixo.

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