Esse negócio de receitas com leite condensado parece mexer com as pessoas. Há defensores ardorosos, inclusive pelo aspecto físico-químico (dito “moderno”, portanto): para fazer mousse de maracujá, nada melhor do que o leite condensado, pois o pH do maracujá ajuda a caseína do leite a formar o gel da mousse. É o que argumenta a Joyce Galvão, a engenheira de alimentos que é das minhas leituras preferidas na net.Ok, trata-se de um grande produto industrial. Então, qual o problema? Sempre acho problemático quando uma coisa “parece” outra da qual vira a solução simplificada. Além disso, o açúcar! Por que o leite deve nos impor, combinado, uma determinada dose de açúcar? Não posso eu escolher o quanto de açúcar convem ao meu paladar ou necessidade dietética? Por que devo pagar pelo açúcar o preço de leite evaporado?
Um litro de leite, 200 grs de açúcar, 8 gemas, 4 ovos inteiros – eis a receita clássica de Escoffier para o creme renversée. O pudim de Leite Moça da Nestlé é o seu substituto: 1 lata do leite condensado, duas medidas equivalentes de leite e 3 ovos. É a mesma coisa? Não, não é.
Uma aluna arguta (Paula Christina Fernandes Carvalho) fez o trabalho final sobre o pudim de leite condensadode no meu curso no Senac, apontando dados históricos sobre o produto. O pensamento crítico sobre o "simples".
Inventado para um mundo sem refrigerador, em 1856, representava um estoque de leite para as crianças numa época em que as mulheres começavam a se incorporar na força de trabalho. Alessandro Stanziani (Histoire de la qualité alimentaire: XIXe–XXe siècle. Paris: Seuil, 2005) mostra como, na França, a defesa da incolumidade do leite era, à época, o que hoje chamaríamos de assunto de “segurança nacional” ou “saúde pública”. Mas os argumentos defendidos por agricultores e mães, a favor do leite in natura, foram dobrados pelos industrialistas.
O leite condensado, no final do século XIX, era importado da Suíça e vendido no Brasil em farmácias, como complemento alimentar infantil. Só em 1921 a Nestlé começou a fabricá-lo em Araras, São Paulo.
Com o boom do nutricionismo infantil no pós-guerra, restaurando a importância do peito materno, ele caiu em desuso. Então, era preciso refuncionalizá-lo. Daí o seu avanço sobre a culinária doméstica.... e se inventa o pudim de leite condensado como substituto para o creme renversée.
No mundo, há o “leite evaporado”, que é o leite condensado sem açúcar. Mas açúcar é barato, quanto mais, mais barateia o produto no qual comparece. Não seria por isso que o “leite evaporado” não criou tradição entre nós? E, por fim, a destruição ampla: do Oiapoque ao Chuí não existe “tradição local” que não incorpore, de modo naïf, alguma receita com leite condensado.
Li num blog: “Há uma mágica no leite condensado, uma medida exata, que é a sedução em seu sentido mais literal. Uma colher nunca satisfaz, mas duas enjoa. Eis aí a metafísica do desejo” Eu, hem? Crendeuspai!!
Antes de ser um produto comestível, o leite condensado é um lobby em lata. Do açúcar, não da vaca. Felizmente, no final, sobra a lata de cinturinha fina para virar lamparina.
3 comentários:
Caro Carlos Dória,
concordo com muito da sua crítica da imposição marqueteira e lobista do leite condensado, mas queria só abrir uma discussão paralela nessa questão, fugindo da técnica e entrando no gosto. Independentemente das receitas que parecem engessadas com o uso do leite moça, é preciso levar em consideração de que já existe uma nova geração de pessoas que estão se envolvendo pouco a pouco com comida (para não falar oficialmente em gastronomia), e que tiveram o paladar formado em grande parte pelo sabor do leite condensado. Sem querer entrar nos méritos históricos e sociais das latinhas, falo por mim, que tenho 27 anos, cozinho e como sempre buscando otimizar as experiências gastronômicas, e sempre tenho latas de leite condensado em casa. Para o meu paladar, uma colherada de leite condensado gelado tem a força nostálgica de uma Madeleine, por mais estranho que isso possa soar para quem não cresceu raspando latas usadas por mães, tias e avós que preparavam as sobremesas "fáceis" oferecidas pelo lobby. Gostando ou não, o lobby venceu, conseguiu ser incorporado no paladar de toda uma geração, que não estará disposta a abrir mão das suas latinhas tão facilmente. Pessoalmente, até aceito o desafio de trocar o crème renversée pelo pudim de leite moça, mas se o sabor ficar levemente diferente (mesmo que melhor), em algum momento voltarei a fazer o jogo da indústria, e assim satisfazer o desejo nostálgico e pessoal de um pudim de infãncia.
grande abraço
Daniel Buarque
monstronacozinha.blogspot.com
para o Doria:é muito isso!o açucar em excesso muda o gosto das coisas, das geleias, das compotas, acaba ficando tudo com a cara dele, leite condensado também!quando nos libertaremos desse colonialismo?
para o Daniel: é Daniel,fala que já está incorporado no gosto dessa geração, mas vale experimentar mais liberdade!
eu vou aproveitar a deixa do pudim e fazer uma pergunta que parece simples mas quanto mais eu faço mais polemica fica: o pudim, tem que ser liso tipo flan ou tem que ser aerado com furinhos?
Tem familias em pé de guerra aqui no meu predio porque eu fiz uma enquete no elevador!
Então Dória, essa pergunta tem resposta?!?!?!?
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