22/10/2009

A educação para o ovo

Um tom de lamento. Ao falar sobre os bichos, Clarice Lispector constata: “sobre galinhas e suas relações com elas próprias, com as pessoas e sobretudo com sua gravidez de ovo, escrevi a vida toda”. Cada um com os seus bichos. Impressionante a onça do conto “Meu tio Iaretê”, de Guimarães Rosa. Tem também o papagaio que, sem nome, atravessa boa parte da obra de Graciliano Ramos. E tem a galinha de Clarice. Ecos de um Brasil rural, chaves de entendimento do mundo moderno.

Laura é “uma galinha muito da simples”, simpática, casada, que vive no quintal de Dona Luisa. Laura possui uma “vida íntima” – o texto, portanto, é uma indiscrição - que Clarice conta para o leitor mirim. Só se pode dizer coisas assim para crianças. Sobre galinhas para adultos, diz: “a sua vida pessoal não nos interessa”. Laura é burra, mas “pensa que pensa”. Foge das pessoas que se aproximam dela, se não é para dar milho, cacarejando “não me matem! não me matem!”. Não entende a economia humana, pois ninguém tem a intenção de matá-la, visto que é ela “que bota mais ovos em todo o galinheiro”. Laura não gosta de pessoa alguma, seus sentimentos são os de “uma caixa de sapatos”.

“Nada de matar galinha”, enuncia Clarice enquanto elogia a delícia que é frango ao molho pardo. O refrigerante que “é bom de se beber com essa galinha” tem um nome que “começa com a letra C”. E toda manhã, bem cedo, Clarice batia na porta dos fundos do apartamento do editor Pedro Paulo de Sena Madureira para tomar uma garrafa de litro de Coca-Cola com Dna. Maru, governanta do editor.

Laura dizia que, se seu destino fosse ser comida, “queria ser comida por Pelé”. Mas não é todo dia que se pode contar com a fome de Pelé. Há os terríveis domingos: “era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma...”.

Há também a metafísica da galinha: “Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo”. Ela foge, é trazida em triunfo para o patíbulo, quanto então acontece: “de pura afobação a galinha pôs um ovo”. E a sentença absolutória: “mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!”. Como heroína, fica senhora da situação, da família. “Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”. Fim do conto.

Os fragmentos de ensaio sobre a galinha Clarice esparge, como milho, sobre a superfície de sua obra. Mas é um disfarce. A galinha é o disfarce do ovo, esta é a coisa. Ninguém, como Clarice, penetrou tão fundo a natureza do ovo.
“De ovo em ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu”. “Quando eu era antiga, um ovo pousou no meu ombro”. “Ao ovo dedico a nação chinesa”. “O ovo é a alma da galinha”. “Ver o ovo é impossível: o ovo é superinvisível como há sons supersônicos”.

E eis a contradição! “Fora de ser um meio de transporte para o ovo, a galinha é tonta, desocupada, míope”. “Para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir para nada”. “As galinhas prejudiciais ao ovo são aquelas que são um eu sem trégua”.

“Para que o ovo atravesse os tempos a galinha existe”. Sim, o ovo foi calculado na Macedônia, e ele é a coisa mais nua que existe no mundo. E acresce que o ovo nunca lutou para ser ovo... “e o ovo? Este é exatamente um dos subterfúgios deles: enquanto eu falava sobre o ovo, eu tinha esquecido do ovo. Falai, falai, instruíram-me eles. E o ovo fica inteiramente protegido por tantas palavras”.

“Por devoção ao ovo, eu o esqueci”. Palavras levando o leitor ao teorema que decifra a charada. Afinal, está provado que o ovo veio antes da galinha. Senão, para que a galinha? Desamparada, na sua existência de servir somente ao ovo, pode ser comida sem culpa. Basta apenas não lhe dar nome ou criar intimidades. Galinha ao molho pardo com coca-cola. Desde criança há que existir a educação para o ovo.

(Este texto, republicado a pedidos, escrevi para a revista EntreLivros)

4 comentários:

Jag disse...

Eita. Acabo de me lembrar de um certo livro, raríssimo, sobre uma galinha chamada Laura, que está em seu poder.
: )

Carlos Dória disse...

Josélia,
a republicação não gera o direito do editor de renovar lembranças desse tipo! Repare: não sei onde coloquei.

Claudia disse...

Adorei, não conhecia.
Uma beleza.

C.

Neide Rigo disse...

Dória, minha mãe adora as galinhas, conversa com elas, mas diz que consegue matá-las sem dó porque não lhes dá nome.
O conto "Meu tio o Iauaretê" é um dos mais lindos do Guimarães Rosa, já que me fez lembrar.
E falar em lembranças, devolva o livro da moça!! Belo texto, um beijo, N

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