31/01/2010

Arquitetura como metáfora gastronomica


Gosto muito de Frank Gehry. Acho que ele desenha o futuro, como nesse prédio da bodega da Riscal, perto de Bilbao, em foto de Pedro Martinelli.

Gosto também porque é um sujeito realista. Para ele, “o urbanismo está nas mãos das corporações de construtores, nas grandes empresas de tijolos... Nós somos arquitetos e servimos aos clientes. Eles nos convidam; não podemos chegar e nos impor. As grandes firmas não chamam arquitetos - elas têm seus arquitetos próprios [...].O urbanismo está morto nos EUA. E nós, arquitetos, não contamos para nada. É preciso mexer demais com política. E, às vezes, isso não dá certo”.

E agora que o canário Adrià está na muda, é hora de refletir sobre essas coisas, e como rebatem na gastronomia. Para onde estávamos indo e onde realmente queremos chegar como civilização. Civilização de ver, de morar, de comer.

Será que a gastronomia não está na mão das grandes corporações também? O que significa o controle sobre a alimentação das grandes massas, o culto “gastronômico” de produtos industriais como a Nutella, o salmão de granja? É a mesma coisa. A morte do urbanismo e a morte da gastronomia têm a mesma dinâmica e produzem o oba-oba em torno do triufo das corporações e seus produtos.

O que é vida está no artesanato. No artesanato arquitetônico de um Frank Gehry, de um Adrià e assim por diante. A vida se contrapõe à racionalidade expansionista do big business.

Não nos iludamos. É preciso olhar a paisagem e ver o que cabe nela como arte, artesanato, como projeção do futuro que queremos. O edifício se tornou mais importante do que o urbanismo como manifestação de intenção, de criatividade; o prato enraizado na alma é mais importante do que os produtos da indústria alimentícia.

Depois, a cidade deglute tudo; a indústria alimentícia deglute a criatividade materializada num prato. É assim mesmo. Mas o instante de liberdade, de independência, é o fundamental para que se possa ir adiante.

1 comentários:

Babel das Artes disse...

Texto emocionante. Eu estudei gastronomia, mas como a ascenção social passa pelo aumento do consumo da comida industrializada, sucumbi. Mas levantei a poeira e hoje trabalho com artesanato. Quase chorei. Além disso, quase fiz estágio no restaurante citado (a escola não firmou convênio). Enfim, tudo sobre comida de verdade. Tudo sobre mim e sobre minha defesa do arroz vermelho na Paraíba. Sim, quase chorei.

Sandra Vasconcelos

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