02/02/2010

Jabaculê

Rato de leitura se alegra ao ver papel. Essa revista nova, na banca: lounge* gourmet. Uma nova revista de gastronomia é sempre o que se espera, pois são poucas as existentes; ainda mais com novidades.

Essa promete: ”nós resolvemos inovar a gastronomia, pegar talvez o maior pecado capital e transformá-lo em lifestile [...]. Sempre quando se fala de gastronomia remete-se a requinte e sofisticação. Nós resolvemos mudar”... É chegada a hora da virada! Viva, comemora-se! Até que enfim a gastronomia que precisamos irá se revelar! E prossegue a leitura: “inovação e ousadia”.. Yes.. mas, daí vem a água fria: “a lounge* gourmet nasce para mostrar aos apaixonados pela culinária que comer é bom demais. Que maionese, catchup, mostarda, geléia e milk shake combinam direitinho e viram um rango e tanto”.

Rapidinho você quer de volta os seus R$ 9,90 mas o jornaleiro olha com aquela cara de que o risco é por conta do freguês.

E você folheia a revista. Não há remédio. Dá de cara com um ensaio vomitório, com pretensão a moderninho, intitulado Hot girls, hot burguers and hot dogs, com merchandising da lanchonete A chapa, Heinz tomato katchup, guaraná Antártica, batata Smiles. Muita meleca e um erotismo pra lá de broxante.

Mas daí, atraído pelo prestígio do chef Alessandro Segato, corre para ler a degustação que ele fez de barrinhas de cereais! A proposta da revista materializada: comida trash sob o crivo da crítica!

São cinco barrinhas: a primeira, “não tem gosto químico ou artificial, o que torna um ponto positivo”; a segunda, “a primeira tem um sabor [qual???] melhor, porém esta também está bem dentro do propósito”; a terceira, “mesmo com tanta qualidade de chocolate, não esconde o sabor”; a quarta, “gosto amargo, muito forte”; a quinta, “ao paladar ela é muito desconfortável, não apreciei”.

E, então, você descobre que o chef Segato inventou um método de degustação no qual não se faz referência a sabor algum, a não ser para desqualificar (amargo)! Como você gosta dele, vai responsabilizar a revista: sacanearam o cara!

Muitas dicas de lugares descoladinhos, aqui e no exterior, para os deambuladores do mundo chic. No mais, muito jabá. Muito mesmo. Anuncio espelhado em matéria editorial. Não que falte jabá em outras revistas do segmento. Não! Mas são mais espertas na arte da dissimulação.

No final da revista, a seção Social. E, você sabe, quem vê Caras não vê coração.

Socorro! É urgente uma revista de gastronomia!

6 comentários:

Breno Raigorodsky disse...

A Gosto não se considera uma revista de gastronomia? E a Prazeres? E a Menú? Não sei não, revista virou uma espécie de exercício para se ganhar dinheiro - por um tempo curto - onde o que menos importa é o leitor. As midias das agências aprovam anúncios (se bem que uma boa parte destes são fantasmas... Entram de graça só para dar impressão de saúde ao veículo) e vamos embora!!!

Cris Couto disse...

É isso aí, Dória. Eu já pararia nas palavras "inovar" e "ousadia", "requinte e sofisticação". Jesuis! Ou melhor, na boca à la madame Jolie da capa. Mal gosto não tem limites. Obrigada por nos avisar. Nem me darei ao trabalho de comprar.

Luiz Felipe disse...

Essa revista é feita pro estudante de gastronomia que não tem idéia do que ta fazendo. Que acha legal tudo isso que você mostrou e que é "super cool" fazer gastronomia. Lamentavel.


@umnariznomundo

com meus botoes disse...

Caro,
Não li e nem lerei.
Agradeço a dica a tempo.
Mas será que vc recomnedaria algumna das nacionais aos marinheiros de primeira viagem , aos estudantes e deslumbrados, como menciona o Luiz Felipe logo acima?

Janine Collaço disse...

ufa!
Ainda bem que não chegou por aqui ainda, economizarei os R$ 9,00. Bem talvez, precise ver para fazer coro, então fica 'investimento a fundo perdido'. Francamente barra de cereal merece ser degustada?
Janine

Fer Guimaraes Rosa disse...

e a fonte do titulo GOURMET é parecidissimo com o da findada revista americana Gourmet.

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