31/05/2010

A censura ao acarajé

É uma grande balela o discurso sobre o ecletismo culinário de São Paulo. País de imigrantes, come-se como imigrante – esse o seu lema. Mas não é que a venda de acarajés tem sido perseguida pela Prefeitura?

“São Paulo é São Paulo, baiana de tabuleiro é coisa de Salvador”, teria dito funcionário da Sub-prefeitura da Sé para justificar o “rapa” que tirou as baianas da rua.

Não sei se é bom o argumento delas: são “tombadas” pelo Patrimônio Histórico Nacional, ao passo que a Prefeitura legaliza o “comércio de cachorro-quente”. Não sei se é bom porque não sei se é verdadeiro, mas o importante é que as autoridades municipais se atenham ao aspecto da higiene e, eventualmente, a determinação de áreas de livre comércio. Só nos faltava a política para alimentos de rua traçada segundo preferências ou preconceitos dos burocratas municipais!

Esses tombamentos pelo IPHAN são mesmo uma balela, pois ninguém respeita. Nem os demais órgãos federais, o que dizer dos estaduais e municipais? A ilegalidade persistente do queijo canastra é a melhor prova.O IPHAN o "tombou" enquanto o SIF persegue implacavelmente as queijarias artesanais e o livre comércio do queijo fora das fronteiras de Minas Gerais. Então, por que a nobilitação das “baianas do acarajé”, transformadas em personagens sociais, haveria de ser acatada fora do seu habitat, que é Salvador? Aqui não há “painho” ou “manhinha” nos órgãos públicos, as solidariedades derivadas do candomblé ou do “carlismo” não funcionam. Outras são as linhagens de poder.

O episódio – que pode ser lido em detalhes na Folha de hoje – mostra que São Paulo, mais do que uma cidade do gosto culinário eclético, tem se transformado numa cidade onde o diverso só pode se manifestar a partir de certo nível de renda, nos restaurantes. Fora deles, para o povão, é “dogão”, sanduíche de padaria e pouco mais. A diversificação da alimentação de rua é combatida, quando devia ser estimulada pelos poderes públicos.

É de se esperar que aqueles que lamentam a perseguição ao acarajé – como há século se perseguiu o candomblé – somem-se aos que lutam pela legalidade do comércio de rua e pelo reconhecimento de que a economia informal é importante fator de ocupação e renda.

Nada de folclorização do alimento! No reconhecimento do seu aspecto vivo e pujante, em Salvador ou em São Paulo, pouco importa, o que está em questão é o direito de fruição do próprio pais.

3 comentários:

Breno Raigorodsky disse...

Boa

Carlos Dória disse...

Péssimo!

barbara disse...

Por conta da matéria da Folha, semana passada, sobre comida de rua, fui parar em um texto sobre a sofisticação dos carrinhos de comida em NY: http://www.cnbc.com/id/37366575/

A comida de rua precisa ser valorizada, pelos aspectos culturais que representa e por ser uma opção viável de alimentação para muita gente.

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