19/05/2010

Sobre o monopólio do gosto e da crítica

Recebi do editor-proprietário da Gosto o comentário abaixo sobre o meu post:


Carlos Dória, desde que você se arvorou em crítico das revistas gastronômicas, acompanho seu blog. Suas opiniões deveriam ser uma referência para o meu trabalho. Infelizmente, não servem para nada. Você faz uma leitura superficial das revistas e, além do mais, não entende nada de jornalismo, muito menos do gastronômico.

Poderia demolir todas as impropriedades que escreveu a meu respeito e da GOSTO, do ragu ao Ponto Chic. Entretanto, não perderei tempo com isso. Só acrescento que, apesar de querer ser um crítico das revistas gastronômicas, não entendeu até hoje o primeiro mandamento editorial da publicação que lancei no ano passado: falar de coisas que todo o mundo conhece, contando coisas que ninguém conhece ou das quais poucos já ouviram falar.

Mas o que realmente me deixou surpreso e decepcionado foi a acusação (indireta ou direta, pouco importa) de que não sou um editor independente, que estou vendendo a capa e reportagens da GOSTO para anunciantes. Ora, não lhe dou o direito de espalhar essa inverdade! Em 42 anos de jornalismo profissional, jamais vendi uma só página de revista. Sou de uma escola – a da VEJA, onde trabalhei 23 anos – na qual redação é redação e departamento de publicidade é departamento de publicidade. Isso todo o mundo sabe, menos você.

Portanto, se escolhi para capa da GOSTO o tiramisú do Roberto Ravioli, não foi porque ele anuncia na revista, mas por achar que o doce italiano e sua história divertida ajudariam a conquistar novos leitores e aumentar a nossa circulação. Afortunadamente, foi o que aconteceu. Se depois Ravioli usou a reportagem para se promover, é outra coisa, até porque está no direito de festejar a enorme repercussão alcançada. Finalmente, caso você tivesse realmente lido o texto sobre “os bravos empresários” da churrascaria Vento Haragano, saberia que o publiquei porque tem novidade e, portanto, interesse jornalístico.

Para seu conhecimento, sempre escolhi as capas com absoluta liberdade, sem consultar ninguém, independentemente do fato de o autor do prato estar anunciando ou não – e vou continuar a fazer isso. O mesmo acontece com as reportagens. Não será o Carlos Dória que vai me ensinar a dirigir ou pautar uma revista.

Aviso: em junho a GOSTO continuará a mesma. Afinal, faço a revista para os meus leitores, felizmente numerosos, não para você.

A gente constrói durante anos uma carreira pautada pela ética, responsabilidade – e um dia aparece um sujeito para nos difamar na internet.

Se voltar a me chamar de venal (indireta ou diretamente), quem vai procurá-lo será o meu advogado.

J. A. Dias Lopes


Respondo:

Caro Dias Lopes. Você é um homem de imprensa há 42 anos e se formou na “escola de Veja” (sic). Certamente foi obrigado a lutar pela liberdade de expressão. Então, é claro que você faz a sua revista como bem entende e eu faço o meu blog como bem entendo. Você sabe o valor disso. Não adianta me ameaçar se eu não me corrigir daqui para a frente. Você não tem o monopólio do gosto como eu não tenho o da crítica.

Na nova seção “Revista das Revistas” não faço críticas para serem úteis aos editores, embora eventualmente possam ser. Faço porque a imprensa se desacostumou da crítica, como é sabido. E nem pretendo “entender de jornalismo”, embora esta não seja uma disciplina superior.

Faço mesmo uma leitura rápida das revistas. Mais impressionista do que qualquer outra coisa: o objetivo da crítica é levar o próprio leitor a refletir na profundidade que ele deseje sobre os problemas facilmente percebidos e apontados (com ou sem propriedade). O suposto é que ele deve confiar mais no seu próprio juízo do que no meu ou no seu. O leitor não é um néscio. Se eu sou injusto, etc, ele não mais me lerá. Ou, ao contrário, considerará pertinente e seguirá lendo. Pessoalmente, não faço nada para “conquistar novos leitores” pois este espaço aqui é gratuito, não tem patrocínio algum, não depende da quantidade de leitores. Esta a possibilidade fascinante que a net oferece.

Mas o que mais lhe aborreceu foi a seguinte passagem do meu comentário às revistas de maio: “o que me chateia mesmo é quando se borram as fronteiras entre o marketing, a publicidade, e a política editorial. Mês passado chamei a atenção para a matéria de capa sobre tiramissu na Gosto e o anúncio do Empório Ravióli na mesma edição. Não é que nesse número a imagem do tiramissu aparece já incorporada ao anuncio do Empório Ravióli? Infelizmente, eu tinha razão. E, agora, o movimento é do Vento Haragano. Uma matéria sobre os bravos empresários que são os donos e um anúncio do próprio restaurante, lá atrás, na página 75. Merchandising da pior espécie. Será que só são interessantes os empresários que anunciam? Há também as matérias sobre os que não anunciaram...etc”.

Em nenhum momento, como pode constatar lendo com cuidado, chamei você de “venal”, seja direta ou indiretamente. Não disse que você vende capa ou qualquer coisa que não seja anúncio. Disse sim – e repito – que me incomoda, aborrece, ver essa coincidência persistente entre matérias editoriais e anúncios. Aliás, nem restringi esta crítica a Gosto. Substancialmente, gosto da comida do Ravióli e acho justo ele estar na capa.

Portanto, se seu advogado for me procurar no futuro, terá dificuldades em provar que eu o considero “venal”. Você há de convir comigo, no entanto – e Veja certamente é uma escola – que a coincidência é incômoda. E incômoda especialmente para você, pois algum leitor poderá fazer ilações indevidas. É isso que me incomoda: o flanco aberto.

Eu sei que você acompanha meu blog desde antes do surgimento dessa nova seção. E já o elogiou, inclusive reproduzindo passagens dele em sua revista. Lamento não poder agradá-lo sempre.

Quanto à revista de junho, saiba que estamos aqui para o que der e vier. Torço para que ela seja cada vez melhor, inclusive marcando muito mais claramente a fronteira entre material editorial e publicitário.

10 comentários:

Breno Raigorodsky disse...

Conversando com proprietários de restaurante, ontem mesmo, chamavámos atenção para esta ética não muito bem constituída entre a matéria jornalística e a propaganda. Revistas mais ou menos marrom usam amostras de determinadas importadoras de vinho para - logo algumas páginas depois - apresentar seus anúncios publicitários.
Não é possível total transparência neste teor, até porque a prática da merchandising permeia o jornalismo e a cinematogragia, desde que Kubric aceitou patrocínio da Parker para apresentar seu produto no histórico filme 2001...

Guilherme Girão disse...

Ambos estão certos, ambos estão errados. Isso é a vida real e a vida real, que, no fundo, são a mesma coisa.
Na minha opinião, o editor da Gosto está certo em se defender de uma acusação de merchandising. Será que ele nunca poderá publicar nada de nenhum anunciante? Claro que pode.
Já você, Dória, está certo em usar e defender seu direito de livre expressão. E nenhum meio é tão providencial quanto a internet.
Mas o editor da Gosto está errado em levar para o lado pessoal uma crítica e fazer ameaças. Ou será que ele vai processar todos que tem alguma crítica sobre a revista?
E você está errado em classificar o conteúdo editorial como merchandising da pior espécie. Existem formas diferentes de escrever e de deixar que o próprio público faça seu próprio julgamento.
Por fim, eu também estou errado: não tenho que defender nem acusar ninguém.
Só quero mesmo contribuir para o debate.
Abraço.

Carlos Dória disse...

Guilherme,
Não sei se você está certo ou errado. Mas o fato de se dispor a debater é positivo. E só quero esclarecer uma coisa: não acho merchandising errado nem certo - e em muitas matérias aparecem menções aos fornecedor dos ingredientes, o que acho transparência - mas não gosto de matéria editorial acompanhadas de anúncios dos restaurantes resenhados. Simples assim.

Edinamar disse...

Realmente falta lógica neste raciocínio de que a revista tem dreito de publicar o que bem entende e o blog não. Está sendo muito difícil para os profissionais de jornalismo entenderem o papel da internet e como ela muda a forma como se conquista leitores. A mesma credibilidade que uma revista pode ter mesmo engrandecendo um anunciante em seus artigos, um blog pode ter, ainda com leituras "superficiais" e ainda que nem sempre seja fácil aceitar críticas.

Leo Beraldo disse...

Seria mais inteligente ouvir os leitores do que processá-los.

José Luiz disse...

Brilhante resposta Dória. Acho que quem fez uma leitura superficial do seu texto foi o editor-proprietário da Gosto. Parabéns!

jb disse...

o que mais me chamou a atenção é que quem usou o termo "vender capa" foi o editor da revista, e não o senhor.

gostei do texto, e da publicação da carta e da eficiente resposta.

meus parabéns pela transparência!

e um abraço!

Claudia disse...

Dória,

Irônico. Esse senhor te acusa de não entender nada de jornalismo mas foi você quem deu espaço para a crítica dele no teu blog e ainda respondeu a carta autoritária e ameaçadora dele com a maior elegância.

Sinceramente, quem não entende de jornalismo é o editor da Gosto, mas ele explicou que foi formado pela Veja...

Aqui está uma prova concreta de que o bom jornalismo nunca foi feito por jornalistas formados em "escolas" de jornalismo. Ainda bem que, mesmo tarde, o Supremo tirou o direito dessa gente de arrotar autoritarismo por onde passam. Vamos combinar que você faz mais jornalismo do que ele.


Por falar nisso, merchandising disfarçado é repugnante e merchandising declarado é enjoativo.


C.

PC disse...

Prezados Senhores e Senhoras:

Achei esse post uma discussão muito interessante por isso aproveito para indicar nosso site www.guiadosrestaurantes.com.br que tem uma proposta para vocês ceder todo o espaço necessario para uma seção exclusiva que falaria de toda a historia da gastronomia no brasil, suas especialidades, particularidades, enfim tudo aquilo que desejarem e feito por vocês, com controle total de vocês.
Fica o convite para um contato direto pelo site obrigado a atenção

Aamir Khan Photos disse...

Estou muito grato de ter a informação deste blog. Gostei do blog como foi escrito, informações que eu tenho aqui.

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