26/11/2010

(Dis)sabores do chocolate


Adoro chocolate, essa coisa que vem se tornando mais e mais o “gfit” o “don”, o presente por excelência. Cria laços delicados entre as pessoas. Por isso vejo com entusiasmo cada livro sobre o tema. Como esse, cuja capa se vê. Livro do chef que saiu do Intercontinental para trabalhar com Robuchon, andou pelo Japão e foi escolhido Meilleur Ouvierer de France em pâtisserie há 20 e poucos anos. Livro de um homem experiente e experimentado.

De fato, é um livro bacana, elementar nas informações e, por isso mesmo, com chances de ser apreciado amplamente. Tem também receitas bem escolhidas, fáceis e sedutoras. Mas tem um defeito insanável.

Ele é originalmente inglês, foi traduzido para o frances e, desse idioma, para o português. É o que se deduz da folha de créditos. E, infelizmente, da própria tradução de Lea Zylberlicht.

Eu não consigo saber o que é “açúcar em pó”, por exemplo. Será o remoto powdered sugar, também conhecido por icing sugar ou, em português, “açúcar de confeiteiro”? Pois ele aparece em várias receitas.

“Merengue Frances”, cuja receita se encontra na página 92, deve ser a versão politicamente correta que os ingleses preferem ao original frances: tête de nègre. E assim entra de novo no idioma frances, como se fosse “O” merengue exclusivo do país. E, rolando política abaixo, chega ao português.

E há erros que não são só de tradução, mas de descuido com essa. Como na receita de “Bolo de Reis com Chocolate”. Lá diz, nas “dicas”: “não esqueça de colocar a fava”! (pag.79). E o leitor, mui justamente, se perguntará: que raio de fava??? A receita não enumera, entre ingredientes, fava alguma. Sugere “baunilha líquida natural”. Onde foi parar a fava, se supostamente de baunilha? Well...

Nessa mesma receita, outra dúvida assalta o leitor: prescreve “açúcar em pó” E “açúcar de confeiteiro”, o que mostra que a suposição minha, de que se trata da mesma coisa está furada... Não dá mesmo para saber que açúcar usar. E quando eu falo que as receitas quase não servem para nada dizem que sou implicante.

Mais cuidado em traduções seria bom. E o Senac sabe que o seu público merece.

9 comentários:

Júnior disse...

Te admiro ainda mais Carlos. Essas sinalizações só podem ser feitas por quem, de fato, sabe do que está falando.

Peter Muds disse...

Olá Doria, boa tarde!

Apenas para sua correção: o livro foi traduzido do francês.

Carlos Dória disse...

Caro, eu disse "ele é originalmente inglês, foi traduzido para o frances e, desse idioma, para o português". Você está dizendo o inverso, é isso? Foi do francês para o ingles? E do ingles para o portugues?

cronicas gulosas disse...

Uma pena. Os melhores marrons que comi em toda minha vida foram feitos por Monsier Hévin, e pelo cuidado que ele deve ter dedicado naquela maravilha que comi, não merecia uma tradução tão atrapalhada.

com meus botoes disse...

Uma pena Dória,e falha lamentável do Senac, que sempre me pareceu bastante cuidadoso inclusive com suas obras.
Sempre que posso procuro ler nos originais, visto que domino ambos idiomas,o que é um privilégio que infelizmente poucos tem.Por isso, valeu o alerta!
Abraços.

Carlos Dória disse...

De fato, é lamentável. Mas esse tipo de problema não é específico do Senac. Vale lembrar às editoras que a Linguistica da Usp tem um grupo de tradutores técnicos ingles/portugues especializados em culinária. Nunca seria demais tê-los por perto.

Consultora Educacional disse...

Gosto muito dos artigos de ótima qualidade do seu Blog. Quando for possível dá uma passadinha para ver nosso Curso de Informática Online. Daienne.

Ricardo Neves Gonzalez disse...

Dória, o SENAC infelizmente está PECANDO em algumas escolhas, alguns livros que tem lançado.Tenho um de Pão da Sandra Canella Rawls que é RECHEADO de ERROS técnicos grosseiros, enormes e visíveis contradições, ou seja, ou realmente não está sabendo escolher os autores certos ou as traduções estão muito, muito mal feitas. Este da Sandra, no capítulo onde ela trata do tema glúten, as confusões e contradições se sucedem. Eu anotei simplesmente dezesseis erros grosseiros apenas neste capítulo do livro, onde trata de farinhas. Vou aqui dar um exemplo:
Ela explicita no início e título de um parágrafo, sobre a farinha de centeio.
Farinha de Centeio ( contém glúten ). Segue assim:
...contém glutenina mas não produz glúten...para afirmar logo a seguir num parágrafo adiante...quantidade de glúten que, embora pequena, possui qualidades expansivas satisfatórias...ou seja, samba do crioulo doido!!!!
É TRISTE ver o SENAC cometer o erro de publicar livros técnicos sem uma revisão ou crítica. Pequenos erros são toleráveis, mas erros de conceito, fundamentos indispensáveis à formação de nossos jovens, estes não podem e não devem passar.
Sou de Petrópolis e há dois anos matriculei-me num curso oferecido pelo SENAC em minha cidade. A Arte de Fazer Pães. Na primeira aula, ao trabalhar a massa, vi que o instrutor não entendia nada de pães. Pedi devolução do dinheiro e avisei à turma o que eu previa naquele momento. O rapaz não chegaria ao final do curso. Dito e feito o curso chegou ao final a duras penas após trocarem o instrutor. Houve um atraso de 4 meses.
Portanto, o SENAC deveria ter muito maior atenção a estes casos e contratar realmente quem sabe!
É UMA PENA!!!

Claudia disse...

O tal açúcar em pó não é o mesmo que confeiteiro. Açúcar em pó é o açúcar de cana comum (em geral cristal) processado para ficar bem fino, ultra fino. Alguns autores sugerem pilar o açúcar, com um pilão de triturar ervas, para formar um pó de açúcar mesmo. Alguns autores franceses reiteram a importância de usar açúcar sem amido já que o açúcar de confeiteiro (o "confectioners sugar" dos americanos e "icing sugar" dos ingleses) é uma mistura de açúcar e contém amido de milho ou batata. Autores franceses quando dão suas receitas de macaron, por exemplo, sempre pedem açúcar puro, sem adição de amidos e sugerem processar o açúcar refinado comum.

Sim, as traduções do senac são pobrezinhas mesmo.

C.

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