10/12/2010

O terroir e sua determinação - IV

Paradoxalmente, Michel Rolland odeia terroirs. Exatamente porque é um artífice do marketing, Michel Rolland tornou-se um severo crítico do sistema de classificação francês. Comentando os vinhos brasileiros do Vale dos Vinhedos e o propósito dos produtores de definirem uma Denominação de Origem (DO), disse: “Penso que o Merlot tem muito potencial nesta região. Mas não entendo o porquê de uma região estar buscando uma DO. Na França, por exemplo, há muitas DOCs, até porque fomos nós que inventamos. Mas quantas DOC a França possui? O que quer dizer uma DOC? Nada! No Brasil, vai ser igual. Então, por que gastar energia por nada? Não quer dizer nada, porque as pessoas não sabem o que é. Por que fazer algo que ninguém conhece? O mundo inteiro está na mesma tonteira. Veja o caso da França: em princípio, havia 50, hoje são mais de 450. Eu mesmo não conheço todas as Indicações Geográficas. Pode ser que 85% de Merlot seja muito bom, mas o que quer dizer isso se em algum ano o Merlot não alcança a qualidade necessária? É pura tonteira. É satisfação pessoal de algumas pessoas. Nada a ver com a qualidade. Nada”.
De fato, na medida em que o vinho se tornou um objeto cativo do marketing, a sua linguagem também se transformou. Ela nos fala das habilidades de homens, ao produzirem, das virtudes do terroir, do colorido da paisagem, um pouco da história local, da arquitetura das bodegas e, não raro, dos roteiros turísticos que se espalham pelas estradas que dão acesso a um vinhedo.
Desse modo, o vinho deixou de ser um simples produto de consumo, uma bebida, para se transformar no bastião de um estilo de vida e, através dele, se deve apreciar valores nem sempre intrínsecos ao produto; portanto, atrela o que outrora foi uma simples fruição doméstica a algo que depende de um conhecimento adquirido de modo específico – nem que seja a leitura semanal da agradável coluna do Luiz Horta – ou através de workshops ou formação profissional. Assim, a idéia de um produto antes responsável por prazeres individuais ou familiares, ou por uma simples euforia, translada-se para um campo organizado da cultura onde o acesso é relativamente dirigido e controlado.


(Segue)

2 comentários:

Fernanda Vianna disse...

Olá, eu acho natural essa preocupação em criar DO´s. Seja pela busca do estilo mais adequado ao terroir seja para criar "valor", como um investimento na indústria. É a massificação e a democratização do vinho que acontece na nossa civilização atual. Quem vai abastecer os novos enófilos chineses de classe média com raridades com valor agregado maior? Quais serão os vinhos mais consumidos da classe média brasileira em 5 anos?

Carlos Dória disse...

Fernanda, a questão é que, levada ao extremo, como diz Rolland, a criação de DOs perde eficácia. O capitalismo tem essa dimensão perversa.

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