14/07/2011

Leitor de 5ª - a Bastilha dos Comida & Paladar

Ninguém resistiu à efeméride: 14 de julho, queda da Bastilha. Paladar ao menos procura aproveitar o mote para mudar de foco e olhar a cozinha londrina (deu preguiça, mas separei para ler). No Comida, a evocação se dá através de matéria sobre brioche. Diz a dita que na composição da massa entram farinha, manteiga, açúcar e ovo. E eu pergunto a você, caro leitor, quantas massas você conhece que levam esses mesmos ingredientes? E por que elas não são brioche?Já que se dispõe a responder, diga também por que o brioche da foto de Comida é torto?

Desalentadora a leitura do Comida. Na capa o cozinheiro da seleção brasileira. O que me interessa o que come a seleção? Futebol é bola na rede, e basta. Por mim, podem comer só Nutella e leite condensado desde que marquem gols.

Não entendi onde Atala pretendeu chegar com a sua crônica, e fiquei com a sensação de que não chegou. O titulo “A gastronomia está ficando chata” prometia, mas não demonstrou porque está chata. Já a “comida sem frescura” de hoje, do Barcinski, tem miolo como tema. Onde ainda se come isso em São Paulo. Na infância, fui obrigado a comer toda a minha cota. Hoje não me interessa mais. E depois da vaca louca prefiro pensar nos bovinos como desmiolados e lelés da cuca.

Nina Horta continua a sua sociologia e psicologia da empregada. As empregadas de sua casa agora. Fiquei pensando na cronica da semana passada, sobre a dificuldade das pessoas se referirem a essas trabalhadoras como “empregadas”. Num pais do favor, de economia prebendária, a referência a “emprego” parece aviltante, como ensinava o mestre Oliveira Vianna - reacionário e lúcido. Enfim, vamos esperar o próximo capitulo desse tema clarice-lispectoriano.

Comida e Paladar dão noticia da (finalmente!) abertura da Tasca da Esquina, do Vitor Sobral. Restaurante que ficou encantado durante anos. Vitor é dos cozinheiros que mais admiro. Mais do time de Santamaria do que de Adrià.

A primeira vez que veio ao Brasil, fazer um festival no L´Arnaque, do Quentin, me ganhou para sempre. Ele consegue sacudir aquela coisa empoeirada da cozinha portuguesa, com gosto de coxa de frango do bolso de D. João VI. Faz uma cozinha moderna e aceitável até pelos tradicionalistas, e nisso está o seu talento e encanto.

A notícia de Comida meteu no nome do restaurante um “La”. Que coisa é essa de La Tasca da Esquina? Tasca é taberna, só isso. Em Portugal, na Espanha e, agora, no Brasil. Patricia Ferraz, no Paladar, registra que essa tasca da esquina... não fica na esquina. Bem português mesmo. O que me impressionou foi a confirmação do que já desconfiava. Há poucos meses estive na Tasca da Esquina de Lisboa (essa sim fica na esquina). Comi o menu degustação que custava 38 euros. Aqui, o equivalente custa R$ 148 ou 61 euros. A culpa não é de Sobral.

Paladar registra a morte de Gabriel Bolaffi. Seu livro, A saga da comida, é uma iniciação magnífica ao tema. De se ler em uma sentada, apesar de copioso. Judeu europeu, de cultura sofisticada, dizia que a saga de sua familia havia inspirado O jardim dos Finzi-Contini. Durante um bom tempo teve um restaurante na praia do Perequê, no Guarujá. Comi bons risotos lá, à época em que não havia arroz arbóreo por aqui. Deixa saudades entre os que o conheceram.

5 comentários:

patricia fontana disse...

sempre delicia ler seus textos! quanto ao chef vitor sobral, realmente ele nos traz a alma do ingrediente! sem mascaras!ah, o livro do bolaffi, facil de se ler! lembro-me de quando o li, trabalhava em comandatuba e o li na varande de casa de frente ao mar, na casa que um dia tive sobre palafitas... bons tempos que não voltam. então "bora" para a tasca quase na esquina...
abraços
patricia fontana

Anônimo disse...

Bolaffi foi meu professor.
Näo li nem comprei seu livro por implicância, frutos da minha juventude.
Obrigada por divulgar o seu falecimento assim como da M.Stella Libânio Christo. Assim fiquei sabendo.
Ambos täo importantes no nosso patrimônio histórico.

Cris Stein

vinicius mainardi disse...

caro Dória, sorri várias vezes lendo o post e senti-me menos sozinho sobre tema comidas & chefs. Por outro lado, a menção do Sobral no L´Arnaque despejou na minha goela uma gota de memória cheia de sabores importantes que nenhum dos artigos que já havia lido tinha despertado. Obrigado.
saudade e saúde, só coisa boa, um abraço, vinicius

Carlos Dória disse...

Vinicius,
Saudades! Vamos combinar uma sobralada?
Abração

Carlos Dória disse...

Patricia,

obrigado pelas palavras gentís e carinhosas.

Postar um comentário