11/02/2012

Do jabaculê ao bundalelê

A diferença entre o jabaculê e o bundalelê é que o segundo não envolve paga e, por outro lado, muito mais gente pode se divertir. O bundalelê é a festa que desborda o limite da festa.

Houve época em que certo crítico gastronômico de um prestigioso matutino ligava para os restaurantes e avisava: “Vou jantar ai com cinco amigos”. E ai de quem não os recebesse! Ia embora, agradecia muito e nenhuma menção de pagar. Depois, saia uma notinha elogiosa na sua coluna. Era uma troca clara, e ele nunca falhava. Era um homem de princípios. Vida dura essa do crítico que precisava sair à caça de cada jantar. Era injusto chamar de jabaculê.

Depois veio a moda das “assessorias de imprensa” que trabalhavam - e como! - para os próprios restaurantes. O assunto começava a transbordar as colunas de crítica gastronomica e elas captavam, por telefone, notícias sobre a frequência dos restaurantes. Se não fosse muito notável, levavam convidados, colunáveis que não pagavam e, numa troca nem sempre explicita, aparecia nas colunas sociais: “Fulano de tal jantou um filé monegasque em tal restaurante, junto com Beltrano, enquanto discutiam os destinos da Nação”.

Essa era difundiu o modelo Chiquinho Scarpa. Egos ficavam inchados, restaurantes cheios. Havia gente que queria ver os chiquinhos em carne e osso! No final do mês, apresentavam ao contratante a centimetragem de notícias que haviam cavado. Havia assessorias muito boas, para mais de metro de notícias.

Depois, ainda na época desse tipo de assessoria, começaram a surgir os próprios restaurantes como personagens, não mais apenas os seus frequentadores. O cardápio de verão e o de inverno, como coleções de moda, eram propagados aos quatro cantos pela grande imprensa. Mas as assessorias de imprensa convenciam os donos de restaurantes da necessidade imperiosa de umas bocas-livres. Eram comuns festas de lançamento dos cardápios, como vernisages. Era o começo do bundalelê.

Mesmo para constar no guia da Vejinha era uma batalha. Vez por outra, uma matéria extensa sobre um determinado prato aparecia numa revista de gastronomia. Valia mais. E da-lhe centimetros ou metros de notícias. Mas já era dificil distinguir o produto do trabalho das assessorias daquilo que era chamado “midia espontânea”, ou o real interesse da imprensa em atitude independente.

Depois ainda, vieram os chefs. Primeiro, os franceses; depois, seus imitadores; por fim, quase todos dos Jardins (e eram poucos). Os chefs foram se tornando personagens, e suas assessorias de imprensa já podiam ser quaisquer; não precisavam ser especializadas em gastronomia. Bastava serem metro-eficientes.

Em seguida, veio a época dos press release. As assessorias inundavam as redações dos jornais com folhas e folhas impressas contando as virtudes dos restaurantes - especialmente os novos - com detalhes do cardápio, da arquitetura, do grupo de investidores. Isso gerava alguma movimentação nos jornais, que saiam a campo para investigar por si próprios. Depois, os jornais reduziram custos, cortaram equipes e os press release se tornaram uma forma privilegiada de contato com o mundo.

A gastronomia foi se tornando essa ideologia do bem-viver à qual, espontaneamente, mais e mais gente adere. E, por fim, parte da imprensa se desmaterializou. Hoje, além dos jornais, os blogs cairam nas graças das assessorias. As caixas de mensagens são abarrotadas de releases. E além de press releases, as assessorias tomam a liberdade - e bote liberdade nisso! - de sugerir que o blogueiro escreva isso ou aquilo, faça um post exaltando as qualidades de tal ou qual azeite, de tal ou qual carne; do restaurante x ou y; do festival de não sei onde; e assim por diante.

Há também convites para degustações, bundalelês tipo “liberou geral”. Os blogueiros amadores se sentem vips. Do anonimato, para a festa por conta de alguma relevância detectada pelas ferramentas Google.

Chegará o dia - que não está distante - em que assessorias gratificarão por centímetro publicado de matérias que elas mesmas redigirão. Pedirão endereço para mandarem brindes, e assim por diante.

Excetuando o período daquele colunista que pagava honestamente o que comia com elogios, por que caminho os donos de restaurante foram convencidos de que poderiam medir a eficácia da difusão de informações por centímetros de colunas de jornais, sem qualquer mediação do leitor? E por quais descaminhos as assessorias de imprensa chegaram à conclusão de que jornalistas e blogueiros estão sempre à espera de alguma coisa-bundalelê da parte de quem lida com alimentos?

Talvez um tanto de preguiça, pois poderiam criar blogs, twitters, para os seus clientes para divulgar amplamente os produtos sobre os quais gostariam de chamar a atenção - coisa que os blogueiros, invariavelmente, observariam sem se atrelarem à pauta das próprias assessorias de imprensa.

Mas as assessorias julgam que os blogs são um caminho virtuoso de divulgação dos seus clientes. Produzir informações é coisa sadia, desejável; querer legitima-las através de sites e blogs especializados em gastronomia é, convenhamos, um certo abuso.

Muitos blogs (que não são fruto do jabaculê, mas de honesta dedicação), mostram como surfam numa eterna festa, noite após noite, sempre novidadeiros, sempre elogiosos. Um simples brigadeiro é motivo de grossa celebração. São os blogs-bundalelê.

Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem

15 comentários:

Anônimo disse...

Olá Dória

Penso que hoje em dia o bundalelê está generalizado na gastronomia.
Gostei quando você escreve que os "chefs foram se tornando personagens", acredito até que de uns tempos pra cá, são personagens astros do rock. Observo isso desde 2008, quando naquele grande evento que acontece aqui em SP sempre no segundo semestre, as pessoas quase trocaram tapas para chegar mais perto da primeira fila nas palestras dos "estrelados".
O bundalelê só vai acabar quando as pessoas se derem conta que comida boa é aquela que nos desperta agradáveis lembranças, aquela que nos faz viajar sem sairmos da cadeira, e, geralmente, não aquela super divulgada pelos blogueiros e assessores de imprensa.

Abraço
Tatiana

Anônimo disse...

Sr Doria ,

Otimo texto. Como proprietario/chef de restaurante e ex cliente se algumas boas e algumas terriveis assessorias , digo que ja passei por situações vergonhosas em relação ao jabacules e bundaleles. A tendencia é só piorar meu amigo .
Venha, te pago um kibon !!
abraço

Benny

Mariana Didier disse...

Estou de acordo em grande parte, mas nao podemos generalizar, há muitos cozinheiros famosos que têm um marketing gastronomico por detrás mas que realmente têm talento e algo diferente pra mostrar e provocar o comensal. Como tb há blogueiros sérios, que claro nao deixam o marketing de lado pois vivem disso, mas têm um critério em escolher os "exlatados" em seu blog e criticam mal qnd tem q criticar!
Tb acredito que hoje um cozinheiro nao basta mais ser só bom, talentoso e criativo, mas para realmente ser reconhecido tem que usar dessas armas. O mundo capitalista é cada vez mais feroz e quem nao souber se defender se trumbica!

Anônimo disse...

Perfeito, Dória. E necessário.
Parabéns!
Abraços!

Alhos, Passas e Maçãs
http://alhosepassas.wordpress.com

jb disse...

APLAUSOS!!!

Constance Escobar disse...

Importantíssima essa discussão. Uma pena não haver muita gente disposta a fazer o que você fez: assumir uma posição, dizer o que pensa em voz alta. O erro está nas duas pontas dessa relação: tanto no jornalista que vende sua opinião por um jantar como nos chefs e restaurateurs que reclamam, mas continuam bancando o oba oba porque, no fim do dia, esse estado de coisas lhes é bastante conveniente.

Carlos Dória disse...

De verdade, Constance, acho que os donos de restaurante sempre farão tudo o que estiver ao alcance para divulgar suas casas. Acho que o novo é a cadeia que se estabeleceu entre os restaurantes e a divulgação via blogs, com a mediação das assessorias de imprensa, talvez porque a imprensa propriamente dita já não consiga dedicar atenção considerada conveniente por tantos restaurantes. Criou-se um novo elo, que nem sempre se comporta bem nesse processo.

Constance Escobar disse...

De fato (e infelizmente), talvez os donos de restaurantes não estejam dispostos a romper com essa situação - que tomou vulto ainda maior com o aparecimento dos blogs, concordo. Mas, então, que parem de reclamar em voz baixa. É preciso haver coerência, né?

Breno Raigorodsky disse...

O bundalelê é um belo termo, você que criou?
Gostei do desabafo, da coragem, do texto, parabéns!

Carlos Dória disse...

Não crio coisa alguma. Só mastigo e cuspo. Bundalelê é palavra dicionarizada

Selo Reserva disse...

Olá,
ótimo blog, parabéns!!!
Meu nome é Alexandre, sou redator e fotógrafo do Selo Reserva, novo site voltado para o mercado de enogastronomia. Estamos nos preparando para lançar a versão Beta e acredito que você gostará do conceito. Neste primeiro momento disponibilizamos uma página virtual de apresentação: http://www.seloreserva.com.br/

Se puder, não deixe de acompanhar nossas atualizações na rede social - facebook.com/seloreserva

Vamos manter contatos,
Att.
Alexandre Sobral R. Horta
alexandre.horta@seloreserva.com.br

José Luiz disse...

Dória,
Os leitores, destinatários finais, acabam em pouco tempo por discernir os blogs e as críticas bundaleles dos sérios. Ótimo texto.

Cláudio Gonzalez disse...

O comentário do "Selo Reserva" parece até piada pronta sendo postado justamente neste artigo. Parece que quem postou o comentário nem leu o texto do Dória.

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Mas tratando do assunto blogs, eu continuo achando --e praticando-- que o correto é ir ao restaurante, pagar, sair sem dizer nada nem se identificar e escrever sobre a experiência que teve como cliente e não como convidado. Mas os blogueiros "famosos" parece que não aceitam mais "trabalhar" com este roteiro.

Denise Browning@frombraziltoyou disse...

Como voce, tambem peco a Deus um pouco de malandragem!!!
Comecei meu blog de gastronomia brasileira recentemente e sei quanto trabalho arduo esta envolvido. E dificil se destacar, ainda que com bom conteudo informativo e gastronomico, no meio de muitos que por serem antigos sao mais lidos, embora nao tenha tanta substancia assim. Hoje em dia, muitos adoram ,infelizmente, a leitura facil e banal. Que Deus nos ajude!

wair de paula disse...

Caro Doria, infelizmente este é um "fenômeno" que nao se restringe à gastronomia. Você poderia mudar o termo comida por arte neste post, e ele ainda faria sentido. Ganha mais espaço quem tem uma assessoria atuante ou uma rede de influencias abrangente - talvez por isso a critica de artes plásticas seja uma raridade na mídia atual. Alguém ganha com isso, mas nao sao os leitores nem clientes. Excelente texto e impecável ponto de vista, parabens.

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