04/07/2013

Higienismo, pizzas e cachaças


Finalmente Comida desembarca no higienismo. Matéria de capa sobre o “queijo minas frescal” não destaca diferenças sensoriais, mas sim que todos os analisados passaram no teste do ProTeste. As 17 marcas analisadas são “seguras para o consumo”. É o mínimo, não é? Quando Marilia Miragaia diz que eles “tem qualidade superior à de dez anos atrás”, quer dizer que são mais limpinhos.

A boa noticia que Comida traz é que o Slow Food abrirá escritório no Brasil, isto é, estará mais próximo e atuante. Vai botar tudo na Arca do Gosto.

Matéria sobe garrafas de cachaça que “agregam valor à bebida”. O segmento de cachaças artesanais cresce 20% ao ano. Há anos tentaram padronizar a garrafa. Coisa de burocratas, e escolheram uma garrafa feia. 

Todo mundo ganharia muito se observasse como os italianos fizeram com a grappa: bebida e embalagens foram alteradas quase simultaneamente, projetando com vigor um velho “novo produto” no mercado internacional. Eles já sabiam, talvez há séculos, que design está na alma do negócio. Mas os nossos cachaceiros já, de saída, estão exagerando: garrafas da cachaça Weber Haus saem a R$ 130, envelhecida 6 anos, e R$ 1.700, envelhecida 12 anos e rótulo banhado a ouro. Imagino um gole e uma lambida nesse rótulo-Hermès para “valer a pena”.

Aliás, sábado acontece o primeiro workshop sobre cachaças do C5. Será analisado o conteúdo, não o continente. Lotação esgotada, segunda turma em formação.

A capa de Paladar é, para mim, algo bem desinteressante: ketchup “artesanal”. A matéria começa com um pé atrás diante de pessoas como eu: “Antes de torcer o nariz porque a capa deste Paladar é sobre ketchup, saiba que esse molho pode ser gastronômico, caseiro, vai muito além do tomate e há muitos chefs fazendo versões artesanais, aqui e no exterior.” Nem assim me comove.

O que vale no jornal é a entrevista de Cintia Bertolino com François Simon que pediu demissão do jornal Le Figaro. Quero destacar uma passagem: “Acho que a crítica está muito amiga dos chefs. E o reflexo está no prato: a comida não anda lá muito interessante. Boas críticas ajudam a construir bons chefs. Hoje, no geral, a crítica está muito gentil, muito próxima da cozinha. Chefs não precisam de amigos para progredir e crescer, precisam de um olhar frio e crítico que lhes diga objetivamente: “Desculpe-me, esse prato pode até ser bonito, mas não é nada bom”. 

Falta esse olhar por aqui também. É impressionante a (con)fusão de interesses e de visão de mundo entre certas revistas e os chefs. Tudo parece Diário Oficial da gastronomia.

Luiz Américo resenha a pizzaria de Santo André e diz que é a melhor pizza que comeu nos últimos tempos. Os donos andaram por Nápoles e Nova Iorque, fizeram estágios em duas pizzarias napolitanas e trouxeram até os fornos, construídos com tijolos que levam em sua composição cinzas do vulcão Vesúvio. É a tal da “agregação de valor”, embora ninguém seja capaz de dizer como cinzas do Vesúvio se transformam em percepção gustativa.
Por falar em pizzas, há coisas que não leio sistematicamente, como a Veja. Mas a Vejinha de 10 de abril trazia interessante pesquisa bolada por Arnaldo Lorençato sobre os preços nacionais e internacionas das pizzas. Em São Paulo seu custo médio é de R$ 52,00. A mais cara, da Vica Pota e da Camelo, de camarão, chega a R$ 150,00. A da 1900 subiu, nos últimos 10 anos, 131% contra 64% da inflação.

A razão, segundo a matéria, é uma taxa de lucro alta. E ela é alta porque “a distribuição de renda desigual gera uma valorização de status nas compras, principalmente para a nova classe média” e “as filas enormes que se formam com frequência na porta das melhores pizzarias indicam que, entre nós, ainda existe gente suficiente para bancar essa conta”.

Uma pizza de camarão na Camelo, precedida de uma dose da cachaça Weber Haus é o máximo a que pode almejar uma classe média “nova” que não descobriu o cinema, a música erudita, os museus, a literatura, e tantos outros signos distintivos de sofisticação cultural que vão ficando irremediavelmente para trás.

4 comentários:

luiz cocozza disse...

Caro Carlos é sempre um prazer ler o seu blog, com relação ao preço da pizza tenho que discordar um pouco da matéria citada, dois dos principais componentes do preço da pizza aumentaram muito mais que a inflação: aluguéis e mão de obra.
O salário mínimo aumentou perto de 180%, o preço dos aluguéis não tenho um índice mas é só conversar com donos de restaurante para ter uma noção.

saudações

Luiz Cocozza

carlos alberto doria disse...

Caro Luiz, sugiro que leia a materia da Vejinha. O que voce aponta, foi considerado lá. De qualquer modo, a diferença entre as pizzas mais baratas em São Paulo (Fugazzeta, R$ 27,90) e as mais caras dá o que pensar: está se "comendo" muito mais que pizza. Status em várias formas materiais, certamente.

Marcia Santos disse...

Adorei o seus posts! Não tomo cachaça, mas não podia deixar de comentar aqui depois de lido '...um gole e uma lambida nesse rótulo-Hermès para ver se o preço vale a pena. Ri muito, adorei.

john wright disse...

agradecer
você compartilhar essa informação ... Voltar para mais
interessante animais como que você começou mais cedo!

pizzarias

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