25/07/2014

Alimentação e corrupção da imprensa

O que seria, nos dias de hoje, uma imprensa responsável? Certamente o leitor espera que ela se coloque ao seu lado, como sentinela vigilante daquilo que possa prejudica-lo. As denúncias de corrupção governamental são um exemplo: leitores e imprensa de um lado, governo do outro, sempre procurando se explicar ou justificar o injustificável. Mas digamos que esse tipo de denuncia é muito mais fácil do que outros. Basta levantar um indício e, pronto! Temos um “escândalo”.

Exemplo de algo praticamente inexistente na imprensa brasileira encontra-se no The Guardian do dia 23 passado, como me alertou gentilmente o leitor Rogério Gaspari Coelho. O jornal simplesmente fez uma investigação de cinco meses (note bem: cinco meses!) antes de publicar uma matéria denunciando a ampla contaminação dos frangos por campilobactéria, atingindo 2/3 dos animais comercializados em certas redes de supermercado.

A campilobactéria vive no trato digestivo das galinhas e pode contaminar a carne durante o processo de manipulação. Ela é responsável por diarréias, febres, vômitos e, no limite, a morte das pessoas que a consomem. É a causa mais comum de diarréia nos Estados Unidos. The Guardian apurou que respondem por cerca de 100 mortes anuais na Inglaterra.

Além de levantar as condições anti-higiênicas de produção dos frangos fracionados - quando se dá a contaminação - The Guardian investigou também os três maiores supermercados, entrevistou agências governamentais e apurou que ninguém está nem ai com o problema.

Na verdade, o governo teme uma crise alimentar semelhante àquela desencadeada em 1988, quando o primeiro ministro conservador Edwina Currie alertou que a maior parte dos ovos britânicos estava contaminada por salmonelas. Ovos, maionese e todos os derivados estavam comprometidos. O ministro caiu e o evento pode ser visto como grande impulsionador da adoção da produção dos frangos “organicos”, Red Label. Foi uma espécie de "vaca louca" avícola...

O silêncio governamental é talvez o aspecto mais importante da denúncia do The Guardian, pois só se justifica a partir do conluio entre autoridades - que existem para proteger a população - com a indústria do frango. Como disse um especialista em segurança alimentar da Universidade de Sussex,  "nos últimos anos, a Food Standards Agency tem estado sob muita pressão do governo e da indústria de alimentos para garantir que só produza mensagens reconfortantes, e, especialmente, que não diga nada que possa provocar qualquer crise alimentar (...) a independência é totalmente ilusória".

Agora, a questão é a seguinte: por que a indústria da informação brasileira não se mostra capaz de fazer investimentos sociais como este do The Guardian? Sim, porque no mundo moderno mais e mais é preciso multiplicar a geração de conteúdo, como forma de fugir a essa grande ilusão comunicacional que é reproduzir ad nauseam o que alguém, por descuido, apurou nalgum canto. Perdeu-se a noção de investimento investigativo, capaz de gerar conteúdo único e embasado em conhecimento. Isso fica para as "agencias", cujos serviços todo jornal e revista compra. Mas que interesse teriam as agencias em ir contra a corrente?

Tenho denunciado aqui, de modo genérico, tanto a indústria de frangos como a de rações animais, além das desconfianças mais legítimas sobre a qualidade sanitária do salmão de granja chileno. Além do conluio governamental, suspeito, pelo silêncio, também do conluio da imprensa brasileira.

Não estou falando de jabá exclusivamente, mas dessa abjeta “redução de gastos” que sempre impõe, aqui e ali, cortes e mais cortes nas redações. Ela funciona sem que os jornalistas sequer visitem as “fontes”, consultando-as por telefone ou e-mails que são respondidos pelas assessorias de imprensa (outros jornalistas, pagos para dourar as pílulas). Isso acaba por impor a visão do mundo oficial, governamental e privado, à grande massa de leitores. A grande imprensa entrega nossa alma ao diabo.

Essa “redução de gastos” - que é a renúncia ao bom jornalismo como The Guardian dá mostras - só é possível porque a imprensa, em algum momento de sua história recente, e pela superprodução de textos na net, se reduziu ao papel diminuto de câmara de ecos dos poucos fatos que tem potencial de comover o público. Dai também, é claro, a ênfase na “corrupção governamental”, quando escândalos se montam a partir de uma simples declaração de um servidor público envolvido (preterido?) nalguma negociata.

A imprensa se corrompeu enormemente, estimulada pelo cálculo racional do lucro e da competição por preços. Se corrompeu naquele sentido maior que Balzac, lá no século XIX, denunciou em Ilusões Perdidas. Ela faz sordidamente o papel de pilar do status quo agitando, para as massas, a ilusão de um poder independente. Longe vai a época em que Ralph Nader era o exemplo de jornalismo cidadão que se procurava imitar nos quatro cantos do mundo.


1 comentários:

Renata Maria disse...

Pois é. Acabei de ler o livro "Les cuisines de la critique gastronomique", de Bénédict Beaugé e Sébastien Demorand, e eles reclamam da mesma coisa na imprensa francesa: falta de investigação. Muita crítica e pouca reportagem.

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