18/07/2014

Em defesa de Jamie Oliver

Interessante a polêmica que se armou em torno das recentes declarações de Jamie Oliver, classificando, no programa “Saia Justa”, brigadeiros e quindins como “um bando de porcarias”.

Não importa se as declarações dele são justas ou não (e, no caso do brigadeiro, me parecem justíssimas), mas ele, que luta contra a obesidade infantil, foi lido e interpretado como se fosse um agressor da soberania nacional. Dezenas de cozinheiros e afins se armaram de argumentos, destilaram fel no Face Book, na tentativa de restabelecer a “ordem nacional” momentaneamente abalada. Os xingamentos foram de “mal educado” a “desrespeitador da cultura dos outros”, e as contra-análises frisaram a excelência dos nossos doces, etc.

A xenofobia contra a crítica - qualquer que seja - é uma coisa lamentável. Tão grave quando o preconceito contra negros, mulheres, homossexuais. A inteligência, esse dom humano, não conhece fronteiras, e o pensamento deve ser exercido com liberdade absoluta, não respeitando limites nacionais.

O ufanismo nacionalista, essa outra vertente ideológica da xenofobia, é certo, anda abalado por conta do futebol alemão. Mas o que tem o cozinheiro inglês com isso?

Teoricamente, gostamos da nossa culinária por inteiro, quando confrontada com a de outros países. E não é difícil encontrar gente que ache ela muito superior à inglesa, por exemplo. Dai defende-la como se fosse nosso time de futebol. Mas Jamie Oliver não defendeu a sua em contraste com a nossa. Dai o sem propósito nacionalista da reação que provocou o seu juízo gastronômico sobre o excesso de açúcar (ele não gostou também da garapa, mas gostou do açaí...).

As pessoas que reagiram mal à crítica desconhecem a diferença entre culinária (a cozinha de um país, por exemplo) e a gastronomia (o juízo do paladar sobre qualquer comida).

A critica gastronômica não tem fronteiras. Quando mais ampla, universal, melhor. Nesse sentido Jamie Oliver nos ajuda a refletir sobre o que parece banal, como o excesso de açúcar na culinária brasileira.

Os chefs, chefinhos e chefetes que gostariam de “exportar” a culinária brasileira naquela linha de “orgulho do meu país” devem refletir sobre as palavras de Jamie Oliver. Quem sabe uma das barreiras não se encontre justamente no que ele apontou? Então, seria necessário reconhecer que deu uma contribuição, e não realizou agressão alguma.


6 comentários:

Eder Pereira disse...

mais uma vez eu digo: Jamie Oliver que é um grande defensor da alimentação saudável obviamente iria achar um doce com chocolate em pó cheio de açúcar e conservantes uma porcaria. Nós podemos gostar do brigadeiro, eu mesmo adoro, mas tenho conciencia que é porcaria.

Anônimo disse...

Ele precisa saber que a gente come esses doces de vez em quando

Paula Peliteiro disse...

Será que um quindim tem mais açúcar do que a Pavlova do Jaime Oliver?

Ernani Teixeira disse...

(parte 1)

Acompanho há tempos e com muito gosto o blog.

Partindo da prerrogativa da liberdade da crítica e do pensamento, acho que posso discordar de certa maneira, hoje. Excessos aparados de um lado e de outro, o que me parece que ocorreu de fato foi uma escorregada diplomática, sim. Em lugar de observações críticas objetivas, com argumentos claros e pontuais - que ele certamente os teria com facilidade - não há como discordarmos que "um horror" e "porcaria" foram certamente palavras muito mal escolhidas.

Comunicação é a chave - ou a tranca, quando mal-sucedida. Os outtakes dele errando ao falar "Oi, Brasil! Eu sou Jamie Oliver e estou no GNT" acabam perfazendo esse pacote de impressão ruim: em lugar de simplesmente uma 'postura descontraída', na verdade um certo descaso com a cultura local. Não se trata de ufanismo, que não sou disso e nem acho que a questão tenha nenhuma pertinência com idiossincrasias locais, não - é, a meu ver, um valor diplomático universal. Quando a gente vai pra qualquer outro país dar alguma palestra, realizar concerto, show etc a gente sempre aprende a falar pelo menos uma frase DECENTEMENTE na língua local, com boa pronúncia, como sinal de respeito, deferência, consideração e boa-vontade diplomática - todo mundo, em qualquer parte do mundo, gosta de perceber que o estrangeiro chegado em seu país está dando um passinho, por mais simbólico que seja, em direção a você, à cultura local, abraçando-a, valorizando-a, reconhecendo-a e se propondo a estabelecer alguma comunicação. A tal 'descontração', quando mal cuidada, acaba passando por relaxo e com isso aponta em certa medida para descaso diplomático, acenando super brochantemente para um quadro de miopia cultural. Vivi minha infância inteira recebendo visitas de norte-americanos na casa de meus pais e vi esse filme se repetir durante anos: enquanto nos empenhávamos em pronunciar os nomes dos visitantes corretamente, éramos em contrapartida chamados por versões adaptadas de nossos nomes sem nenhum cuidado; curiosamente, (hoje ironicamente) foi o que acabou me motivando, anos depois, a me dedicar ao inglês britânico em detrimento do americano...

Ernani Teixeira disse...

(parte 2)

Sou filho duas famílias mineiras tradicionais, cuja base da doçaria tradicional é praticamente calda de açúcar - portanto sou também o primeiro a reconhecer (com conhecimento de causa) o quando nosso paladar é carregado no açúcar. Creio que uma folheada rápida no livro "O Açúcar" do Gilberto Freyre ajudaria um pouco o Jamie Oliver a compreender as raízes históricas da presença tão marcante desse elemento em nossa cozinha, e, independentemente de ele gostar disso ou não, de criticar com toda propriedade o excesso de seu emprego na culinária do seu ponto de vista gastronômico pessoal, certamente poderia o fazer com mais propriedade e tendo mais noção do grau de relevância desse ingrediente em nossa cultura.

Idiossincrasias culturais há por toda parte, cada uma resultante das conjunturas históricas, econômicas, geográficas do desenvolvimento de cada culinária: em termos de juízos gastronômicos individuais, alguns estranham a proporção de pimentas fortes em várias cozinhas, o coentro em outras, o cominho em outras, a falta de sal em outras, a acidez forte em outras, a manteiga onipresente em outras etc. Ninguém é obrigado a declarar um amor incondicional por todo e qualquer preparo de qualquer cozinha do mundo, mas chegar disparando 'horror' e 'porcaria' foi, no mínimo, e sem ufanismos, leviano.

Não sei nada sobre os planos do Oliver em abrir um estabelecimento aqui, mas se for verdade, ele certamente começou com três pés esquerdos em termos diplomáticos. Regra básica para abrir um estabelecimento em outro ambiente cultural: CONHEÇA o paladar local, conheça a cultura local, mesmo que seja para propor algo radicalmente diferente, para ao menos saber com propriedade a partir do que começar a estabelecer um relacionamento, saber como entabular um 'diálogo' com o paladar existente mesmo que seja dialético e pretendendo convencer e persuadir a se encaminhar para outros rumos. Mas isso só se faz conversando, se esforçando para se comunicar... na língua local.

Anônimo disse...

Ernani, seu texto está muito bom!!! Concordo em gênero, número e grau com você. E o Jamie Oliver não falou "porcaria". Foi pior, ele disse que brigadeiro e quindim são um "monte de m...".

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