01/04/2015

Por que a crítica gastronômica vai desaparecer?

Não é raro ouvir chorumelas de críticos gastronômicos sobre o aviltamento da atividade pela profusão de blogs e páginas no Facebook (antigo Face Book, me adverte um moderno...) dedicadas a algo semelhante (influir no que outros comem). Muitos dos lamurientos são críticos estabelecidos na praça há 40 anos, e dão sinais de fadiga dos materiais diante da jovialidade irrelevante dos blogs.

O que é espantoso, antes de tudo, é a estabilidade da casta dos críticos nos jornais e revistas. Eles sabem tudo sobre vinhos e comidas, daqui e do exterior, justamente porque observam esse mundo há tanto tempo, viajaram, participaram de feiras e congressos que reúnem os seus iguais, formaram convicções sobre os rumos da gastronomia. A moçada que vai chegando, via blogs, comete erros enormes a ponto de ser, quase que em geral, um bando de deslumbrados com os pratos que comeram aqui ou ali, ou os vinhos que postaram. A emoção de uma “degustação vertical” parece se aproximar daquela de uma orgia...  É tudo uma questão de experiência acumulada, de entusiasmo de neófitos.

E se observarmos outras áreas da cultura - como a crítica literária, ou cinematográfica - é possível notar um índice de renovação grande (exceto, é claro, pela monumentalidade de Antonio Cândido), mais facilmente aceita pelos veteranos. Gente que estuda, se especializa e, de repente, está falando coisa com coisa sobre literatura, cinema ou música.

Por que não é assim em gastronomia? Ora, comemos todos os dias, e sabemos o que é “bom” ou “ruim” por experiência própria. Em relação à gastronomia, somos mais como torcedores de futebol do que sujeitos eruditos: todo mundo “entende” de comida o suficiente para nomear e fotografar o “melhor pudim de leite condensado” da cidade, o melhor hamburguer e assim por diante. O “eu” fala mais forte do que a cultura acumulada de qualquer forma, e a transformação é tão extraordinária que se dão ao luxo de, exercendo a "crítica", dispensar o tratamento de "críticos".

Quando a internet abriu-se para a gastronomia, foi como abrir uma porteira e a manada invadiu as pastagens. Muitos interesses contraditórios se aninharam ai, inclusive os cultores do jabá - tão mais difícil em jornais e revistas. Separar o joio do trigo, é claro, como sempre fica a cargo do leitor. A grande diferença é que, “crítico” e leitor se encontram num nível bem mais elementar de experiência, confessando abertamente preferencias pessoais. Todo mundo quer comer sempre melhor e se eu tenho a solução para isso devo contar aos meus amigos.

Esse aspecto do by appointment é muito curioso, e substancialmente diferente da crítica exercida em jornais e revistas. É inegável o peso maior de algo impresso, embora as revistas não se dediquem à atividade crítica entendida como “negativa”. E a crítica positiva, digamos, é um porre. Haja vista os verdadeiros catálogos de vinhos em que se transformaram quase todas as revistas gastronômicas.  Os jornais às vezes são mais rigorosos, e parecem mais confiáveis, inclusive quando sugerem que é melhor “não ir” a um determinado lugar. Mas nada - absolutamente nada - supera a simpatia entre crítico e leitor.

A proximidade que a internet cria, inclusive com a possibilidade de interação, é infinitamente mais eficaz do que aquela que os jornais ou revistas encarnam. Se escrevo numa revista que gosto do Jiquitaia, por exemplo, isso tem um peso “institucional” que não tem no Facebook. Mas aqui, um leitor pode me perguntar: “o que eu devo comer no Jiquitaia?” Qualquer coisa que eu responda, ele poderá seguir e postar: “achei uma porcaria”. E eu responderei: “eu gosto do Jiquitaia”. Na grande midia o “eu gosto” não é cabível, porque expõe a mim e não o objeto da crítica, e o argumento tem que se cercar do que parece método de análise e isenção. Na internet, posso ser propagandista dos meus amigos (e quantos “críticos” fazem isso!), já na midia impressa não é o que se espera. E essa diferença é tão mais relevante quando sabemos que, no frigir dos ovos, não há mesmo método ou isenção que se possa descrever nesse terreno onde o último juízo (que é o primeiro) é: gostei/não gostei. Posso tornar complexa e rebuscada a explicação, mas não conseguirei abolir a minha subjetividade.

É essa subjetividade exuberante que é a força e a fraqueza da crítica nas mídias virtuais. No Facebook você tem “amigos”, não leitores. E os amigos o julgam pelo conjunto da obra, não por uma opinião específica. Tendem a “confiar” em você, se acaso tem o mesmo gosto musical, a mesma opinião política, vai à mesma bicicletada e assim por diante. “No que você está pensando?”, pergunta o Facebook, e se você for sincero deverá ser levado em consideração pelos amigos nessa espécie de intimidade distante, de compadrio virtual.  Uma indicação de restaurante é sempre um detalhe, mas um detalhe mais “quente” do que seguir o que está impresso num guia qualquer e que responde a sabe-se lá que interesses (sempre desconfiamos do que é mais pomposo).

Esse deslocamento da confiança corrói a crítica da grande midia. Há uma dessacralização das opiniões, visto que todas parecem igualmente confiáveis. E basta que uma experiência não corresponda ao sugerido por alguém para abandonarmos esse alguém como “guia” e adotar outro. A opinião do crítico do jornal não é tão descartável assim.

Há, claro, aqueles que angariam simpatias na net mais pelo estilo verborrágico, pela encenação, do que pela intimidade com a gastronomia, contentando-se (e aos seus seguidores) a indicar, como Nero, o que é bom e o que “não presta”. E isso é tão eficaz que até mesmo se dispensam de visitar ou comer em bom número de lugares que rechaçam. O preconceito é reforçado pelo aplauso dos seguidores, torna-se virtude.

O grupo de amigos substituiu o velho grupo de leitores, com os quais contavam os críticos da midia tradicional. E o esfacelamento do grupo de leitores é o esfacelamento da razão de ser da crítica institucionalizada.

Resta saber se esse crescimento horizontal tremendo tem alguma virtude. Hoje as opiniões políticas ou estéticas se fazem mais em grupos de amigos (chamadas “redes” ou não) do que em instituições. São sempre menos elaboradas do que aquelas institucionalizadas. Nem por isso ineficazes. As ruas tem sido ocupadas por gente mobilizada dessa forma, independente das cores políticas. Os partidos políticos parecem coisas do passado. Boa parte dos frequentadores de restaurantes também são assim mobilizados, de modo avulso, sem alinhamentos prévios.

Penso na minha própria experiência. Os jornais resenham as “novidades”, mas sou do tipo de leitor que não se impressiona com elas. Não corro atrás. Gosto mais de observar as mutações nos restaurantes conhecidos, que aprecio ou não. Não encontro isso em jornais, mas certamente encontro nos blogs e no Facebook. Pessoalmente sigo as indicações de Alhos, passas e maças. E voltarei ao Beato por indicação dele, apesar da má experiência que tive lá. É uma “segunda chance” para mim, porque é uma experiência reiterada e positiva seguir esse crítico.  E me impressiona como ele está atento a aspectos omitidos pela crítica institucional, como nesse desabafo em resposta a um leitor:

“Já vi e ouvi de tudo nesses anos. No capítulo ‘vinhos’, soube de histórias tão ultrajantes quanto mesquinhas; acho que é o ponto mais sensível desse universo gastronômico, e poucos se dão conta dos bastidores desse universo. No capítulo ‘comida’, recebi confissões e desabafos inacreditáveis, feitos por gente muito séria, e assisti a exibições exuberantes de cozinheiros medíocres. No capítulo ‘donos de restaurantes’, já li elogios rasgados a quem simplesmente copia modas estrangeiras e aqui é celebrado como ‘pioneiro’. No capítulo ‘jornalismo’, conheci um dos maiores canalhas com quem tive azar de cruzar na vida”.

Será que se pode atribuir grandeza à crítica em jornais que deixa passar em brancas nuvens assuntos assim tão relevantes?

5 comentários:

Breno Raigorodsky disse...

Bela reflexão. Podia ser menor, com mais cara de internet, mas você não liga para isso, acertadamente, no meu entender. Esta coisa de texto grande ou pequeno, me faz lembrar os críticos de texto publicitário que diziam - está provado que apenas 8% dos expostos a texto leem além do título do anúncio. Ao que os redatores e diretores de criação respondiam com propriedade - exatamente os 8% que se interessam pelo assunto!

carlos alberto doria disse...

Todo mundo que tem muita certeza, fala muita bobagem. A entrevista com Tainá Marajoara foi o maior texto que já publiquei e bateu o meu record de audiência.

Patrícia de Gomensoro disse...

É uma ótima reflexão. Como em tudo mais no universo da internet, há bons e maus críticos/comentadores de gastronomia. E me arrisco a dizer que mais e mais leitores (talvez os mais jovens?) estão deixando de se importar com o tal peso institucional da mídia impressa tradicional, ajudando a dar relevância a opiniões alheias que, em verdade, não a mereceriam. Ao menos aqui em Porto Alegre, passamos por outro momento que vale comentar: os jornais firmando parcerias com comentadores de internet. Nada contra a união de forças por si mesma (jornais e revistas andam mesmo tendo que se repensar). O problema é que o veículo em questão delegou o trabalho editorial em seu caderno de gastronomia a um grupo de comentadores (que aglutina uma vasta rede de colaboradores mundo afora) que se definem como "não-especialistas" que simplesmente gostam de comer e escrever sobre isso. Até há pouco tempo, o site deles mencionava orgulhosamente que eles não sabem diferenciar coentro de manjericão ou alguma outra erva... E esse grupo tem presença, viu, a parceria não se deu por acaso. É um excelente exemplo do quadro que você descreveu, do reinado das opiniões, da subjetividade.

Ricardo Neves Gonzalez disse...

Excelente texto Dória. Uma das melhores entrevistas que li na vida. Tanto pelas brilhantes perguntas suas quanto pelas surpreendentes respostas da Tainá.

Anônimo disse...

Caro,
só hoje vi o texto.
Obrigado pela referência e, sobretudo, pela confiança - valiosíssima nesses dias difíceis.
Abraços!

http://alhosepassas.wordpress.com

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