06/12/2015

A liberdade de comercialização do acarajé e a mística estatal

Um importante antropólogo inglês, Sir Edmund Leach, costumava lembrar que, em um povo qualquer, quanto mais forte um mito, menor a importância do rito correspondente; inversamente, quanto mais fraco o mito, maior a importância dos ritos. Foi o que me ocorreu ao ler a notícia de que a Prefeitura de Salvador resolveu perseguir as baianas do acarajé que não se vestem com trajes alusivos ao candomblé, como é o caso daquelas evangélicas, candomblé-fóbicas, que vendem o acarajé rebatizado de “bolinho de Jesus”.

Digamos que de um ponto de vista agnóstico, ou simplesmente laico, essa mudança não tem a menor importância. Sempre me pareceu um abuso o “tombamento” das “baianas do acarajé” pelo Iphan, como “patrimônio imaterial”. Absurdo porque a monumentalização de pessoas sempre esbarra no fato de que a sociedade muda e, com ela, as pessoas que a integram e que expressam um valor maior: a liberdade de escolha. Quer agora o Estado que essas senhoras, que procuram ganhar a vida honestamente vendendo comida de rua, como se faz há séculos na Bahia (quando algumas eram muçulmanas aliás, sob um Estado católico), e muito antes da modinha atual,  sejam  obrigadas a se fantasiar de crentes nas divindades do candomblé.

Pois essas senhoras, de matriz cultural afro-brasileira, agora, em parte, professam outra fé, e a comida, até onde sabemos, é mera atividade de transformação material. Por que então converter a atividade produtiva em um monopólio religioso? Até porque alguém pode comprar um "bolinho de jesus" e, ao morde-lo, este se converter em acarajé, à semelhança do momento em que o pão se transformaria no corpo de Cristo... Vários são os mistérios da incorporação.

Algumas poucas “comidas de azeite”, ou “comidas de santo”, se laicizaram. Basta que se confira as obras dos estudiosos do começo do século XX, como Manoel Querino e Nina Rodrigues. E foram laicizadas porque a fé justamente não se abalaria ao serem ofertadas a um público maior, não restrito aos rituais do candomblé.

 O “tombamento” - movimento moderno em prol do enriquecimento simbólico das instituições estatais, e do qual participaram sociólogos e antropólogos de claro viés conservador - revela-se um obstáculo ao livre comércio de rua, sendo esse obstáculo meramente ideológico, nada tendo a ver com a higiene ou saúde dos consumidores!

Vamos ver como termina esse embate, torcendo para que prevaleça o democrático direito de escolha. Quem quiser comer acarajé, que coma; quem quiser comer bolinho de jesus, que o faça! De preferência sem colocar ketchup ou mostarda, conforme notícias que nos chegam das ruas de Salvador...

Saravá!

3 comentários:

Aline Araujo disse...

Eita como adoro sua provocação!

Georgia Bastos disse...

saravá!!!

Fernando Santa Clara disse...

Lúcidos argumentos. Certamente o "registro", à guisa do "tombamento" - este utilizado pelo IPHAN para processos que envolvem bens de cunho material - é algo que engessa, torna estático. Ainda que o argumento de "salvaguardar" o bem ganhe frente na discussão, muitas vezes esse processo culmina em medidas como essa, de estratificar a gastronomia - produtos e fazeres. Muito boa a discussão.

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