28/08/2009

Make off d´ "O novo estranho caminho de Santiago"

A viagem a Logroño, que deu origem à série, foi feita em 2006. Muita gente achou que foi feita agora, mas é “antiga” do ponto de vista das instant-news que alimentam a imprensa. O patrocínio foi do governo provincial; o convite gentil da organizadora, Joana Munné. Ela aparece em foto ao final do capítulo de numero III.

Era uma viagem para jornalistas e afins, para um certame de degustação dos melhores vinhos da Rioja. Tinha gente do mundo todo, e deu gosto ver os neo-chineses experimentando tudo, parlamentando em língua incompreensível, anotando. É assim que o vinho se dissemina.

Pedro Martinelli e eu fomos na categoria “afins”, com a idéia de reportar a experiência não como degustadores de vinhos, mas como viajantes. Turistas-aprendizes-de-vinho.

Pessoalmente, me seduzia o desafio de relatar algo ilustrado pela excelência do olhar do Pedro Martinelli. Especialmente quando ele decidiu fazer o registro em preto e branco. O que me levou a decidir algo insólito também: nenhuma palavra sobre o gosto dos vinhos. Nenhuma descrição da coisa em si.

De comum, além da partilha do sabor da aventura, tínhamos: nenhum roteiro, nenhuma idéia pré-estabelecida e a ausência de compromisso com qualquer editor. Uma viagem à Antonio Machado (“caminante, no hay camino”). O resultado foi esse: um texto feito com liberdade, aproveitando algumas das dezenas de fotos primorosas para alinhavar uma narrativa.

Minha idéia era “narrar”, e não “descrever”: colocar o leitor dentro da cena, e não olhando de fora. Não sei se consegui. De qualquer forma, me concentrei no entorno do vinho. E a descoberta que verdadeiramente me tocou foi ver as pessoas divididas entre os chamados da tradição e da modernidade, procurando conciliá-las como podiam – às vezes apenas através do recurso à imaginação. Acho que todo o universo da alimentação vive isso em alguma medida.

Valeu a pena também conhecer o Paniego, e vir acompanhando a sua caminhada de lá para cá, em meio aos dois “chamados” que, no caso, estão instaurados no âmago do seu negócio.


Quando voltei a Madrid e relatei a experiência a Jose Peñin, ele disse taxativo: “É uma barbaridade submeter amadores a um certame profissional desses! Tenho pena de vocês!” Claro, não tínhamos a menor competência para degustar mais de 150 vinhos em 3 dias.

Nos embriagamos várias vezes. Como cuspir vinho que estávamos adorando? Nada disso! Depois de certa altura, Pedro e eu estabelecemos a nossa “estratégia da aranha”: colocávamos uma gotícula de vinho sobre fundo branco – se a mancha fosse cor uva ou ameixa, não bebíamos! Somente tomávamos aqueles de coloração cereja ou telha!!! Sobrevivemos muito bem. Especialmente quando dávamos seqüência à beberagem diurna com as longas sessões de “tapas”, no pôr do sol e noite adentro.


De volta ao Brasil, ninguém quis publicar a matéria, é óbvio. “Muito longa”, diziam; “alimentos e turismo com fotos em preto e branco não funciona”; e assim por diante. A imprensa moderna estranha a reportagem “à antiga”. Era de se prever. Pena é que ninguém mais paga repórter para fazer algo que substitua isso, ainda que dentro dos cânones. Revistas especializadas andam pela hora da morte. Compram imagens em bancos de imagens. Entrevistam por telefone, cultuam a cor e o texto curto. Talvez por isso também os blogs se multiplicam.

A idéia da reportagem foi uma maneira de Pedro Martinelli e eu viajarmos, organizarmos nossas percepções. Narrar a viagem é uma forma de embarcar o leitor em algumas emoções e pensamentos. Se alguém ficou com desejo de ir à Rioja, não em peregrinação religiosa, valeu o relato.

7 comentários:

Leo Beraldo disse...

Uma pena mesmo que esse relato nunca tenha sido publicado, até agora. O caminho fácil que as publicações escolheram, não tem sido, definitivamente, o melhor.

Carlos Dória disse...

Bem, Leo,esta aqui é uma forma de pubicação; e estamos apostando que ela tenha alguma eficácia, não é? Acho que e um modelo de texto que a evolução da imprensa brasileira deixou para trás. Mas ainda o reconheço "vivo" no New York Times; quer dizer, ainda não morreu completamente...
Abraços

Leo Beraldo disse...

Ah sim, me expressei mal. Me referia às publicações tradicionais especializadas. Boas histórias sempre vão encontrar seus leitores.

Carlos Dória disse...

Não, não se expressou mal. Apenas estamos acostumados à velha idéia de que "publicação" envolve papel e tinta, não é?

Ana Paula Bousquet disse...

Dória,

Ainda bem que temos um espaço como o seu, o do Pedro para podermos embarcar em viagens como esta que você nos proporcionou com primor!
Seu relato e percepções fogem inteiramente do lugar comum, avança numa camada sensória do nosso imaginário que nem sentimos ser um texto longo. Puro deleite.
Essa dobradinha Dória-Pedro é sensacional, talento que jorra nas narrativas e imagens fabulosas.
Abre o baú, quem sabe não te mais por aí para nos presentear?

Abraço,
Ana Paula Bousquet

Carlos Dória disse...

Ana,
gentil como sempre. Vou ver com o Pedro quais as próximas gavetas.
Abraço

Ana Paula Bousquet disse...

Dória,

mais do que ser gentil é admiração, pois sei o quanto é penoso o ofício de traduzir em palavras experiências, idéias, sentimento. Tarefa árdua que só o apuro, vivências, treino nos leva a.
E vocês sabem. E como!
Tô no aguardo, acompanhando, aprendendo...

Inté,
Ana Paula

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