25/08/2009

O novo estranho caminho de Santiago - III


A paisagem é inóspita. A Espanha é seca como um Nordeste civilizado. Lá existe “el honor” como, no sertão, a honra. E as cabras. João Cabral de Mello Neto, quando lá embaixador, já havia cantado as suas como se pernambucanas fossem. Somos todos ibéricos. Mas, em vez de mandacarus, vinhas...e o trem, como uma navalha branca, recorta lentamente a monotonia em direção à Rioja. No futuro, atestam os trilhos em construção do trem de alta velocidade em direção a Paris, a navalha será mais precisa e menos monótona, como no velho filme de Buñuel. Paris é um destino universal.
A província de La Rioja, grudada no País Basco, é a menor província espanhola. Pouco mais de 1% do território nacional e cerca de 300 mil habitantes que praticamente só pensam em vinhos. São quase 60 mil hectares de vinhedos. Dessas terras, as pessoas ordenham cerca de 360 milhões de litros de vinho por ano. São pequenas propriedades: 88% com até um hectare. E aqui cessa o paralelo com o Nordeste brasileiro, pois latifúndio só deste lado do Atlântico. São mais ou menos 20 mil famílias que fazem vinhos, número que aumenta continuamente desde os anos 1980. Há um total de 2.900 bodegas – a segunda denominação controlada, La Mancha, possui apenas 420 bodegas. Vinho espanhol, portanto, é na Rioja. Um terço de todas as bodegas nacionais estão lá. No futuro, cada quintal será um vinhedo, pode-se imaginar. “A geração de meus avós era de agricultores. Meu pai era militar. Sou veterinária, mas eu e meus irmãos seguimos carreiras urbanas, ninguém se importando com as terras. Só agora meu irmão resolveu tocar a propriedade e nós o estamos ajudando”, diz nossa guia. Além da ajuda dos irmãos, a mão-de-obra temporária dos paquistaneses e indianos... É a volta à terra, ao planeta vinho. A área plantada vive hoje um novo boom, como nos anos 1960e 1980. Desta vez faz-se acompanhar pelo fantasma do filme Mondovino, que todo mundo comenta.

Um terço dos vinicultores produzem vinhos em cooperativas, outro tanto são “criadores”. Sim, em La Rioja o vinho se “cria”, como uma coisa que se arranca da terra para dar vida e dignidade. A categoria mais simples dos vinhos elaborados se chama justamente “crianza”, pois ficam 6 meses em barrica de carvalho e 18 meses em garrafas, deitados nas adegas, envelhecendo sob o olho do dono. Os que ficam 36 meses, são chamados “reserva”; os que ficam 60 meses são os “gran reserva”. Qual é o melhor? Descobrir, esta é sua primeira tarefa. Certamente você aprendeu que o “gran reserva”, mais cuidado e mais caro, é o melhor. Será? Boa parte da arte reside na tanoaria, na contrução dos tonéis com carvalhos de várias procedências. Alguns fazem os próprios, evitando igualar-se aos concorrentes através da origem comum dos tonéis.

A Espanha é o terceiro produtor mundial de vinhos, só perdendo para a Itália e França. Os grandes importadores são a Alemanha e o Reino Unido, seguidos pela França e Estados Unidos; mas se somarmos o que a Argentina e os Estados Unidos produzem, já batem a Espanha. Portanto a Espanha precisa ficar esperta: vender mais e mais para a Alemanha, Reino Unido, e cair nas graças dos norte-americanos. Aliás, o que estes bebem individualmente é ridículo: 8 litros por ano per capita, contra 38 na Argentina e 58 na França. Há muito o que crescer.

Como vender mais vinhos para o mundo? É preciso divulgá-lo, modernizá-lo, competir enfim. Assim pensam os riojanos e o Conselho da Denominação Rioja – o órgão oficial que regula a qualidade, a quantidade e o marketing do vinho – se entrega de corpo e alma a esse objetivo. Exércitos de “catadores”, ou “degustadores” como diríamos, atravessam os vinhedos em ônibus com ar condicionado. Como formigas à busca do açúcar visitam vinhedos; percorrem bodegas; ouvem infindáveis discursos dos bodegueiros sobre as virtudes dos seus vinhos; anotam, comentam, provam. Tiram suas conclusões apressadas, sobem de novo no ônibus em direção a outras bodegas onde tirarão novas conclusões, agora com ares de definitivas. Almoçam numa delas, depois, mais vinhedos. E mais vinhedos. E jantam em outra bodega. Entusiasmam-se, riem muito, discursam em agradecimento. De noite, exaustos, se atiram na cama para, no dia seguinte, prosseguir a maratona.

Vez ou outra, os ônibus cruzam o que Buñuel chamou de “O estranho caminho de Santiago” (1969) e Paulo Coelho pretende reapresentar ao mundo como exemplo da sua devoção ao altar dos best-sellers. Andarilhos atravessam os vinhedos com suas mochilas às costas, ou mesmo as ruas de Logroño, pequena capital de La Rioja (140 mil habitantes), onde há mil anos surgiram no monasterio de San Millán de Suso, construído no séc. X, os primeiros manuscritos em “lengua cristiana”, o castelhano. La Rioja, berço da hispanidad, está no caminho da tradição não só do vinho, mas da fé, por la gracia de Dios. O país dos católicos fervorosos, hoje convertido em país de “catadores” dedicados.

(Segue. Amanhã novo capítulo)

4 comentários:

Leo Beraldo disse...

Belo relato Dória, cada dia fica mais interessante acompanhar sua viagem.

Carlos Dória disse...

Leo,
obrigado! É um texto antigo, mas achei que valia a pena publicar. Especialmente pela recuperação das magníficas fotos do Pedro Martinelli.

Miguel disse...

Carlos, Excelente o seu relato. Eu na minha condição de ibérico e amante das suas regiões, não posso deixar de ficar emocionado com a sensibilidade que perpassa o seu texto. As fotos estão à altura das palavras. Muito bem-haja por nos ensinar todos os dias.

Carlos Dória disse...

Miguel,
obrigado pelas palavras gentís.
Abraços

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