03/09/2009

Saúde púbica dos áulicos

Você se lembra do “caso da papoula”? Do caso do “queijo minas de leite cru”? Do mel de abelha sem ferrão, que não pode ser chamado “mel” porque não é produto das espécies exóticas de abelhas, que são “legais”?

Agora, temos o caso da flor de sal... O blog da Roberta Sudbrack que deu o alerta de que querem proibir a importação da dita “flor de sal”.
Por que? Porque não tem iodo adicionado. Mas por que se adiciona iodo?

Porque os pobres, no Brasil, sofrem de bócio. Falta de iodo que provoca deformações na tiróide. Por isso há uma legislação que manda acrescentar iodo ao sal que não tem. O sal é veículo do iodo. Só isso. E por isso os camaradas da Anvisa se sentem os mocinhos da história. Mas pergunto: pobre comeria "flor de sal"? Acho que a Anvisa não estudou o capítulo da distribuição de renda no Brasil. Acrescentar iodo na flor de sal tem o mesmo impacto que acrescentar no foie gras. Como eles não fazem a menor idéia disso, gente que tem mais o que fazer tem que dedicar atenção a eles.

Se agirem como parece que farão, agirão como quando, num lance de inteligência raro, se engajaram na luta contra os narcotraficantes proibindo a papoula culinária. Assim pensam eles...

Então, quando mudam os hábitos alimentares, quando a coisa melhora cá na terra, vem sempre um burocrata e decreta: não pode!

Não pode nada, além de dizer amém. Mas bócio rima com beócio, e este é o triste caminho que as autoridades sanitárias estão trilhando. Ao não perceberem que a alimentação é histórica, dinâmica na sua forma e composição, se beocificam.

Bem que os iluminados do governo podiam oferecer para eles uns cursos de atualização. Ou essa gente não existe?

10 comentários:

Alessander Guerra disse...

Acho que essa gente não existe Carlos. Aliás há um verdadeiro apagão generalizado no Governo. Talvez no grito a gente consiga que alguém ouça.

abraço
Alessander Guerra
www.cuecasnacozinha.com

Helio Bacha disse...

Mas se o adicionar iodo ao sal foi um grande avanço na prevenção do bócio e do cretinismo como fazer uma brecha que possa prescindir disso? Como fazer uma lei que diferencie os pobres dos ricos?
Ou deveríamos ter uma lei especial para os de "bom gosto e elegância à mesa"?

Carlos Dória disse...

Bacha,
você, que é um médico esclarecido, sabe que imposições à industria alimentar são essenciais na defesa da saúde pública. E sabe também que os ricos, que são os únicos que comem flor de sal, estão longe de ter qualquer necessidade adicional de sal. Correto? Não estou sendo anti-republicano, advogando normas para diferentes classes sociais. Apenas sei,de antemão, que esta cautela é, no caso, inócua.
No caso da papoula, pura estupidez. No caso do queijo minas, uma legislação copiada dos EUA. E assim por diante...
Entendo que as normativas da Anvisa precisam ser revistas de modo amplo, à luz de conhecimentos científicos mais mordernos - pois o órgão se ossificou num passado bem distante, se conciderarmos o rítmo das descobertas científicas atuais.
Abração

Carlos Dória disse...

Leia-se "necessidade adicional de iodo".

Vitor Hugo disse...

Como comentei com a chef Roberta, também não creio que quem necessite de iodo iria comprar flor de sal. O preço não permitiria, além de acharem absurdo pagar caro por 'sal'.

Entretanto, é preciso levar em conta que a Lei (nº 6150, 03/12/1974) tem mais de 30 anos. Naquela época, acredito que ninguém imaginava a flor de sol em terras nacionais. Uma revisão dela considerando o produto seria de grande valia.

Só que entra numa outra questão: será que os fabricantes de sal no Brasil iriam aceitar? Ou fariam alguma manobra para transformar seus produtos em "flor de sal" e deixar de colocar o iodo no produto…

janete disse...

Porque uma lei criada a mais de 30 anos não pode ser atualizada? A grande maioria da população não faz idéia do que seja " flor de sal " no entanto ela ja é presente.
Acredito que como este assunto é sério em valores culinários, mas com pouco valor político, seria dificil que um " PRÓ A VALORIZAÇÃO DO SABOR " resolvesse LUTAR pela causa.
Tb acho que teria muitos safados , que se existisse uma brecha na lei, deixaria de gastar com o sodio no sal dos menos favorecidos.
Meu rico pais governado por gente safada e sem vergonha, com políticas baseada em políticas alheias, continuaria assim: cozinheiros sofrendo com legislações sem nexo, e políticos se deliciando em seus jantares regados de produtos " proibidos " temperados delicadamente com Flor de Sal .

5 de Setembro de 2009 14:44

janete disse...

Porque uma lei criada a mais de 30 anos não pode ser atualizada? A grande maioria da população não faz idéia do que seja " flor de sal " no entanto ela ja é presente.
Acredito que como este assunto é sério em valores culinários, mas com pouco valor político, seria dificil que um " PRÓ A VALORIZAÇÃO DO SABOR " resolvesse LUTAR pela causa.
Tb acho que teria muitos safados , que se existisse uma brecha na lei, deixaria de gastar com o sodio no sal dos menos favorecidos.
Meu rico pais governado por gente safada e sem vergonha, com políticas baseada em políticas alheias, continuaria assim: cozinheiros sofrendo com legislações sem nexo, e políticos se deliciando em seus jantares regados de produtos " proibidos " temperados delicadamente com Flor de Sal .

5 de Setembro de 2009 14:44

Neide Rigo disse...

E não nos esqueçamos do caso do ácido fólico, cujo acréscimo na farinha de trigo e de milho é obrigatório. E agora já estão se discutinho os efeitos nocivos deste acréscimo. Sabe-se que o excesso da folacina artificial pode se acumular, causar câncer e outras cositas mas. De fato, ela evita problemas de má formação fetal, mas nem eu nem você precisamos destes cuidados, não é mesmo? E quanto o sal iodato, é um absurdo total. Gostaria de ter opções. Até agora não se sabe porque aumentou tanto o número de casos de tireoidite auto-imune. Sabe-se lá, hem?...

Carlos Dória disse...

Acho que os comentários todos mostram que a questão de se utilizar ingredientes culinários como veículos para produtos químicos que, em algum momento, se imaginou favorável à saúde humana, está encontrando um ponto de inflexão.
Graças ao novo "raciocínio gastronômico" a atenção sobre a alimentação não é mais apenas utilitária, funcional ou instrumental. Há outros aspectos a considerar, talvez em contradição com os atuais critérios. Isto exige das autoridades sanitárias uma nova postura, a assimilação de pontos de vista que não existiam para que não estejam em conflito injustificado com a sociedade. Não tenho dúvida também de que tudo isso deve ser pautado pelo desenvolvimento das ciências.

Eduardo Tristão Girão disse...

De onde veio, exatamente, esse alerta? Vi nos comentários do post da Roberta que dois de seus fornecedores haviam sido proibidos de importar a flor de sal. É isso? Onde está publicada, exatamente, essa tal proibição? Procurei pela internet, mas não achei. Está no site da Anvisa? Lá encontrei a tal resolução da década de 70 e uma referência a sal clandestino da marca "Flor de sal" - não se trata da flor de sal, portanto.
Abraços.

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