27/11/2009

O prêmio Paladar e o seu verismo

Voltemos à questão dos prêmios, agora estimulado pelas considerações ponderadas do Alhos sobre o que ontem escrevi aqui, bem como pelo seu comentário ao meu post.

É tão raro que se discuta qualquer coisa mais a fundo no país que é realmente um privilégio essa atenção do Alhos; especialmente sendo o conhecimento gastronômico esse “saber gratuito” onde o dogmatismo nos torna “pedantes árbitros do nada” (Manuel Vasquez Montalbán).

Os prêmios são coisas boas para quem recebe e para quem dá. O Nobel, por exemplo, dá uma grana preta. Só doidos como Sartre achavam que ganhariam mais recusando o premio. Prêmios também são bons para as instituições que os conferem. Pense rápido: o que seria da Câmara Brasileira do Livro sem o prêmio Jabuti?

Como todo recorte numa classe de bens culturais, os prêmios incluem e excluem. Desse modo, buscam criar referências de inclusão e exclusão. Mas, o que são essas referencias gastronômicas e o que pretendem comunicar ao público? No caso de meios de comunicação, talvez sugerir ao leitor onde deva ir e onde não deva ir.

Mas ninguém é ingênuo, pois todos sabem que o leitor, longe de ser um carneirinho, escolhe os caminhos a seguir e, como forma de fazê-lo, inventa seus próprios críticos gastronômicos.

Pessoalmente, sempre me dei bem seguindo as indicações de Alhos e do Luiz Américo. Não preciso de outras, além dessas duas referências e da minha própria história de tentativa e erro. Gosto dos métodos de análise deles, e coincido em boa parte das preferências. Os críticos que aprecio são isso: extensões do meu gosto e do meu modo de analisar. Quando erram do ponto de vista do meu gosto, eu os abandono e escolho outros. Esse utilitarismo está na alma de quantos sigam opiniões gastronômicas.

Mas o que eu quis discutir ontem a respeito do premio Paladar – e acho que a ressaca atrapalhou um pouco – foi a concepção verista que se armou por trás desse prêmio: ele sugere ao leitor que um conjunto de doze críticos produz um juízo melhor do que cada crítico em particular. O que argumentei é que não, haja vista o “desvio padrão” de alguns críticos em relação ao consenso transitório construído pelo prêmio. Como exemplo, meu querido amigo Roberto Smeraldi, homem de cultura culinária ímpar, só “acertou na mosca” três dos campeões. Eu mesmo, quando participei do Guia da Folha, acertei nenhum. Em outras palavras: se os críticos não se entendem entre si, por que o leitor deve entendê-los como partículas de um juízo superior?

Minha hipótese: a teoria verista do premio Paladar é que a exposição da diversidade de opiniões o valoriza por um critério de “transparência” ou “democracia” (a maioria dos doze votantes). E como, a partir do próximo ano, o júri será “popular”, parece que o jornal quer assimilar um juízo externo a ele mesmo como melhor para o leitor.

Penso diferente: assim como a Academia Brasileira de Letras, a Câmara Brasileira do Livro, o jornal O Estado de São Paulo (e Veja ou Folha de São Paulo) são instituições, muito mais do que coleções de críticos. Seus prêmios valem como posicionamento próprio, independentemente da maneira como forma o juízo que subscreve. Pode contratar especialistas anônimos, pessoas de reconhecimento público, ou indicar por preferência dos acionistas ou seus delegados. Pouco importa. O premio será da instituição. Quem “assina” é a instituição. Você já viu crítico literário oferecer sua análise particular de um romance ou poesia para justificar seu voto num concurso ou prêmio?

No caso dos órgãos de imprensa, o que a indicação institucional busca? O premio reflete uma política pedagógica: jornais tem como meta formar opinião. Acho que o premio devia preservar seus juízes no anonimato – como Alhos e Que Bicho me Mordeu fazem e fizeram – para que o resultado fosse assumido pelo jornal com responsabilidade exclusiva. Seria a sua opinião.

Teoricamente os leitores de tais votações passam a contar com novas referências. E a minha pergunta: elas são melhores, mais sólidas do que as dos críticos que, no dia a dia, listam os seus preferidos? Minha resposta: não necessariamente.

No comentário do Alhos acima referido ele é muito mais claro (e portanto mais útil como orientação) do que nos seus votos no premio Paladar. Não só porque indica o que considerou os 10 melhores pratos, mas porque indica também os 10 piores que seus colegas de júri preferiram. O comentário de Alhos é uma verdadeira jóia de guia gastronômico!

Definitivamente, a teoria do consenso como princípio verista a orientar a impressa está em queda. Umberto Eco já publicou boas reflexões sobre isso, a respeito de uma greve de jornalistas italianos que não abalou o público até que os colunistas aderiram e pararam de escrever, provocando uma avalanche de protestos dos leitores. Ninguém mais busca informações nos jornais, o que existe na net e na Tv é superior nesse plano. O leitor busca opiniões.

Portanto, Paladar deve formar o seu juízo como algo novo, singular, se quiser influir sobre o leitor tanto ou mais que os indivíduos de que se serviu para escolher os vencedores (Alhos, Luiz Américo, Neide Rigo, Patrícia Ferraz, Jacques Trefois, Roberto Smeraldi, etc). Ao expor o voto de cada um, desacreditou a síntese – simplesmente porque a opinião de cada crítico é mais forte do que o consenso torto que formaram. Poderia ser diferente? Sim, poderia – e por isso mesmo a discussão se justifica.

Alhos, buscando explicar as discrepâncias, diz: “Acho que a variação de voto [...]resultou, em muitos casos, da irregularidade de nossos restaurantes. Pelo menos quatro pratos que receberam votos — um deles foi o vitorioso em sua categoria — estavam intragáveis em minhas visitas”. Pessoalmente acho que pratos “intragáveis” não deviam ser escolhidos em hipótese alguma, nem em dias que estavam “comíveis”; simplesmente por que eu, ao acreditar na indicação do jornal, posso ter a infelicidade de ir comer o prato no seu dia de “intragabilidade”. Não me parece um bom argumento. Acho que faltou discussão aos jurados para formar um juízo só, assinado pelo jornal, e não por cada um em particular.

Em próximos posts voltarei às questões que restaram:
1.o recorte geográfico (e, portanto, de classe, numa cidade cujo espaço é altamente segregacionista) dos 35 restaurantes escolhidos;
2.as categorias de análise dos restaurantes
3.a definição metonímica de bistrô que foi adotada pelo premio;
4.o “caso pain perdu”, etc.

Mas que fique registrado que os comentários como os do Alhos e outros é que dão sentido a escrever aqui sobre essa coisa gratuita e apaixonante que é a gastronomia. Sem diálogo crítico, ficamos prisioneiros da vulgaridade.

9 comentários:

Romaine Carelli disse...

Realmente acho que o que falta é integração entre os jurados, e mais envolvimento com a gastronomia, não adianta chamar pra jurado quem não tem esse envolvimento na causa.
Pra quem não olha a gastronomia com amor.

Breno Raigorodsky disse...

Como membro do CCSP de São Paulo por algumas vezes, tive oportunidade de discutir a questão a fundo e pretendo colaborar com o meu depoimento:
por definição, o juri é formado para definir um prêmio dado obrigatoriamente pelo coletivo, pois é ele que tem a força. Claro que esta força é composta pelo prestígio de cada um dos seus componentes, mas quem distribui o prestígio do julgamento é, no caso, o Estadão que está por trás de cada um dos jurados.
Ao contrário, o parecer de cada um dos jurados, pratica comum entre os vinhateiros em suas avaliações coletivas, é para resguardar/defender aqueles que ficaram indignados com um resultado, quiseram mostrar independência. A estes sempre sugeri não participar de qualquer juri coletivo.

Bronza disse...

Estou de acordo com você, o comentário do Alhos no blog dele foi realmente primoroso e fornece subsídios para muitas reflexões.

Como, por exemplo, a reflexão objeto deste post -- que embora seja importantíssima, não é, a meu ver, a mais relevante.

Aqui, porém, importa a opinião do dono do blog na escolha dos assuntos e, para não desviar do tema, tentarei me limitar ao debate proposto.

Considerando o objetivo declarado do Prêmio Paladar, que outro método você considera capaz de fornecer resultado mais preciso?

Além disso, o que o leva a afirmar que o jornal desacredita a síntese simplesmente porque expõe o voto de cada um dos indivíduos de que se serviu para escolher os vencedores?

Permita-me um reparo: anônimo, mesmo, só o Alhos. O nome completo dos autores do blog Que bicho me mordeu é mencionado várias vezes na revista em que se divulgou o resultado do Prêmio.

Abraços!

Carlos Dória disse...

Bronza,
obrigado pelos comentários. Alhos sempre dá o que pensar, e essa é a virtude do seu blog - assim como do Luiz Américo. Os Bichos são anônimos no sentido que pouca gente do meio os conhece. Conseguem ainda passar anonimamente.
Quanto ao método de escolha há vários possíveis. Como votações - como fez a Folha, a Gula (em priscas eras), etc. Cada órgão escolhe o seu. O juri do Paladar é de personalidades da área, pessoas que já orientam escolhas dos leitores. Não vi nenhum ganho expressivo ao se associarem de modo público, para construir um juizo onde parte do que pensam foi sacrificado pelo consenso.

Bronza disse...

Dória,
obrigado pela resposta.
Talvez o leitor convidado (Flávio Siqueira) tenha conseguido passar anonimamente. Mas é no mínimo impreciso afirmar categoricamente que, hoje em dia, com a repercussão que o blog deles tem, aliado ao fato de que nome foi divulgado, que pouca gente do meio conhece Os Bichos.

Carlos Dória disse...

Bronza,
vou aceitar sua ponderação e banir os Bichos..rs Fiquemos com o manto do anonimato do Alhos, que acho que devia recobrir os 12 juízes.

Bronza disse...

Dória,
por favor não faça isso, corremos o risco de alguma associação dessas mais radicais nos acusar de maus-tratos. rs

A ideia de que todos os jurados deveriam ser anônimos é utópica. Anônimos há vários -- mas quantos em condições de julgar os pratos?

Quanto ao tema central do post, ao estabelecer critérios e fornecer subsídios para que os jurados possam realizar as diversas visitas, o jornal avoca para si o resultado final. A meu ver, expor o voto de cada jurado – e ao menos a síntese das justificativas – é fornecer ao leitor informação. E da informação, dos critérios, da escolha dos jurados, da coerência interna, enfim, do conjunto desses e de outros fatores, resulta a credibilidade do resultado. E, com ela, a influência sobre o leitor.

Abs

Carlos Dória disse...

A avaliação dos Bichos sobre a maratona os coloca como bichos de estimação. Serão sempre bem tratados...
Acho que estamos de acordo: o Paladar preferiu o verismo dos jurados do que empenhar seu próprio prestigio constituindo um novo sujeito em meio ao cenário critico. Poderia ter recorrido aos mesmos jurados, dar o nome deles, mas não "abrir" cada voto em particular - para produzir o efeito que, entendo, seria melhor.

alhosepassas disse...

Carlos,
puxa, cheguei tarde e já peguei o debate quente...
Obrigado pelos comentários e pela oportunidade da conversa.
Tentei prossegui-la, lá no blog.
Abraços!

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