26/11/2009

Paladar, o prêmio (meu voto em separado)

Ainda estou meio de ressaca. O leitor releve, pois ontem foi a entrega do prêmio Paladar 2009. Uma bela festa, alegre e descontraída, e o Estadão aproveitou-a para lançar um balão de ensaio: a revista Paladar. Pareceu tão natural que o prêmio estivesse relatado numa revista que, quem sabe, isso virará hábito.

Mas não sou muito a favor de prêmios gastronômicos. Portanto, posso também dar o meu voto e o leitor discordar à vontade. Mas não sou a favor porque não existe “o melhor” nessa área. E isso se constata nos próprios votos dos jurados – 12 pessoas escolhidas para julgarem 35 restaurantes e 51 pratos. O que coincidiu entre eles? Dois jurados coincidiram em 70%, três em 60%, dois em 50%, e houve uma jurada, a própria editora do Paladar, que coincidiu em apenas 20% com o juízo de seus colegas. Certamente as suas razões devem dar mais o que pensar do que o consenso que se criou circunstancialmente.

Depois, há o problema das categorias e da escolha dos restaurantes. “Entradas”, “sobremesas” e “bistrô” são recortes de classes diferente de “pratos” (sushi, massa, peixe e frutos do mar, carne de porco, carne, ovinos e caprinos). Não posso admitir que uma entrada do DOM seja o prato que mereça destaque naquele restaurante que é tido como um dos melhores do mundo. Em seguida, há que considerar que os 35 restaurantes avaliados em algum item pertencem à São Paulo da grana, estão incrustados na geografia dos ditos “jardins” – e será que não há comida inteligente muito além dos jardins, para a qual mereceria chamar a atenção do público?

Melhor prato de bistrô é difícil de dizer, senão impossível. Nem mesmo o conceito de bistrô é uniforme no Brasil. E como garantir que moules et frites é melhor que um coq au vin ou um tartare ? É comparar coisas incomparáveis.

O mesmo em sobremesas. Ganhou o pain perdu (antiga rabanada no lexico culinário corrente entre nossas mães). Mas é a melhor rabanada da cidade? Acho que não. Muito boa a do Ici. Uma criação sutil, especialmente porque se baseia no brioche que, como sabemos, não é o típico pain perdu. O do AK nem esteve em cogitação – e é muito bom! – nem o da Regina Preta que, no meu modo de entender, é o melhor. Aposto que nem todos do júri conhecem o Regina Preta. Nem seria necessário, pois não estava em causa a melhor rabanada da cidade.

O que vai se tecendo não é um elenco de injustiças, mas de omissões que turvam o horizonte do “melhor” em gastronomia. Mas se o resultado consagra o consagrando, omissões de novo tipo aparecem. Os leitores de Paladar escolheram o melhor couvert: o do Carlota. Não me parece correto. Já disse aqui que sou a favor do tratamento a pão e água, mas se o couvert for definido como fez o prêmio (como “um entretenimento” antes de chegar o principal), então acho que o do Brasil a Gosto é o melhor entre os restaurantes consagrados.

E os petiscos, são “entrada” ou “couvert”? Onde localizar o excelente torresmo do Mocotó? Bem, ele só foi avaliado em “Experiências brasileiras”, categoria onde é gritante a não inclusão do Brasil a Gosto e do Dois – Culinária Contemporânea.

Mas o prêmio serviu também para corrigir injustiças flagrantes. Dar o “Personalidade do ano” para a Ana Soares é mais ou menos como dar o Nobel de Literatura para Doris Lessing. Ambas são “personalidades da década” se quiserem. Corrige-se o cochilo dos premiadores, isto sim. No mais, é reconfortante ver o bom desempenho do Mani, a presença do Shin-Zushi,tanto quanto são incompreensíveis certas ausências. Mas, de verdade, o que está em julgamento é o juízo dos juízes, não os seus julgados.

Mas tudo isso é bobagem. Devo estar ficando meio ranzinza, pois o que importa mesmo é que foi uma bela festa e os leitores terão, à disposição, um critério a mais para se aventurar no mundo quase inesgotável dos prazeres gastronômicos.

Vai por mim: tudo ali merece uma visitação. Outro dia, com menos ressaca, volto ao tema.

3 comentários:

eduluz disse...

Muito bom o teu comentário. Concordo em gênero, número, grau e sabor!

alhosepassas disse...

Carlos,

creio que prêmios, em qualquer área, são referências.

Numa avaliação rigorosa, tudo pode resultar - numa perspectiva ou em outra - incomparável. O mesmo vale para listas de "melhores livros", "melhores discos" ou "melhores restaurantes". E quanto mais amplo o recorte, mais abstrata e vaga a comparação se torna. E mais idiossincrasias podem surgir.

Acho que a variação de voto - falo aqui especificamente como jurado dessa edição do prêmio, e não como teórico do assunto - resultou, em muitos casos, da irregularidade de nossos restaurantes. Pelo menos quatro pratos que receberam votos - um deles foi o vitorioso em sua categoria - estavam intragáveis em minhas visitas. Essa é uma das questões, ou referências, que um prêmio pode suscitar.

Em tempo: freqüento o Regina Preta com alguma regularidade e gosto da comida de lá, embora o ache meio caro (em relação ao que serve). Curiosamente, nunca comi um bom pain perdu por lá. Quanto ao do AK, concordo integralmente. É das melhores sobremesas da cidade - olha a abstração aí de novo.

No final das contas, calculo que todos ganhamos com a comparacão e a sistematização de avaliações que os prêmios oferecem. Desde que, claro, não acreditemos que o gosto e a experiência alheia podem substituir a nossa.

Abraços!

manuela disse...

Carlos
O Dom foi escolhido o um dos melhores do mundo por um juri em que a maioria dos votantes nunca veio ao dom ou ao Brasil
Então se você não é a favor de premios gastronomicos não entendo a razão pela qual você usa um premio para criticar outro no qual pelo menos é exigido que o juri conheça o restaurante que vai avaliar

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