01/02/2011

A implosão do Pomodori segundo um repórter involuntário



Havia um ar imperceptivelmente cult, do tipo Attack of the Killer Tomatoe (1978), por todos os lados.

Logo após entrar no Pomodori, observei que entrou também um senhor que parecia uma pequena barrica (dessas que, invariavelmente, trazem dentro um causídico), e que gesticulava e se agitava, chamando a atenção dos garçons. Trazia à mão uma pasta transparente onde se via algo que, presumivelmente, seria uma notificação ou citação.

Um garçon foi à boqueta, mas Jeferson não podia mesmo atender ao senhor impaciente. “Nadava”, como se diz no jargão. Mas o homenzinho não se conformava, e disse, finalmente, como num desafio: “Bem, se ele não pode me atender que vá ao meu escritório! É aqui perto mesmo”. Deu ao garçon um cartão de visitas e advertiu: “Estou esperando ele lá”. O tom de ameaça, parecendo protetor, era típico de quem, trazendo uma má notícia, acha que ela é de suma importância para quem é afetado.

Logo depois que Pedro Martinelli e eu nos acomodamos à mesa e começamos a comer os seus tomates moqueados, veio Jeferson. Nos cumprimentou efusivamente, como quem não sabe que um grande acontecimento de sua vida está prestes a acontecer. Não sabe sequer interpretar os sinais do destino expressos metaforicamente naqueles tomates queimados. Ninguém sabe.

Eu não o conhecia, apenas à sua cozinha e cardápio. Estava lá para conhece-lo. O celular tocou e ele atendeu. Percebi que falavam do advogado de sua sócia. Quando ele desligou, relatei os modos impróprios do homenzinho. “Sim, era o advogado dela então”, se deu conta. E tratou de ligar para Janaina, a Dna. Onça, para contar o episódio.

Jeferson explicou que ficaria no Pomodori até junho ou julho e, depois, daria consultoria à antiga sócia por um longo período. Período no qual iria se dedicar ao novo projeto, mais ítalo-paulista. “São Paulo, a terra do café, só tinha italiano no interior”.

E recordamos essas comidas do interior. Ele é de São José do Rio Pardo, cidade onde vivi alguns anos na infância. Trocamos reminiscências enquanto vinham à mesa lardo di Colonata, panchetta assada, lentilha com ravióli de frutos do mar e foie gras. E a taça de Sassoaloro...

Mas o telefone não deixava de nos interromper. E Jeferson teve que nos explicar, por alto, o conflito surgido com sua antiga sócia, o acordo que fizeram e como ela se sentira afetada por ele haver comunicado a todo mundo que estava de saída do Pomodori.

As ligações telefônicas se intensificavam. Os personagens de alternavam. Pedro e eu nos demos conta de que não era um bom dia. Mas Jeferson, pacientemente, procurava ser o melhor anfitrião possível .

Como uma tempestade se arma, uma evocação de Tati Quebra-barraco foi se adensando. Logo se via: a sócia queria porque queria uma reunião imediatamente. “Estou ocupado, quando terminar vamos falar”. Depois, Janaina veio para o restaurante. E a sócia comunicou que também vinha. Chegou. Telefonava para Jeferson dentro do próprio restaurante. “Estou ocupado, logo mais vamos conversar”. E aquela “insensata frivolidade, como uma lagarta gigante parecia que ia mordendo a linha secreta do seu caminho”, diria Lezama Lima. Finalmente a sócia e sua mãe se aproximam de nossa mesa:

- Eu preciso falar com você!


- Estou ocupado. Assim que eu terminar conversamos, respondeu Jeferson aparentando uma frieza que os cozinheiros raramente têm, até mesmo pela proximidade com o forno.

- Mas eu estou com pressa!

E Jeferson, pedindo desculpas, foi até a salinha de espera do Pomodori escutar a sócia. Palavras às vezes em tom mais alto do que o cortes. Frases-chavão (“sou casada em comunhão de bens”, “gente que nunca trabalhou”) se alternavam. A sócia, sua mãe, Jeferson e Dna Onça – agora uma perfeita uiaretê.

E, como anfitrião e amigo, Jeferson sentiu-se na obrigação de nos inteirar do que se passava. Pôs em minha mão aquele maldito papel que o homem-barrica, cheio de leis, não conseguira entregar.

Era um comunicado dos Restaurantes Tompson Ltda (sim, Marina Tompson era o nome da sócia agoniada) dizendo que o juiz da 33ª Vara Civil havia proibido Jeferson de entrar no restaurante Pomodori e de que seu salário (não digo quanto!), a partir de então, seria depositado em juízo.

Dna Onça, uma arara, tirava os quadros da parede, vociferava. Mas o advogado do casal, prudentemente, chamou-os ao escritório. Lá se foi Dna Onça, não sem antes propagar:

- Quem quiser trabalhar no Dna Onça tem emprego a partir de amanhã!

Quando Jeferson e Dna Onça, rosnando, puseram o pé fora do Pomodori, me dei conta do que havia acontecido. Eu e Pedro Martinelli havíamos presenciado, involuntariamente, a implosão de um restaurante.

Aquela senhora, que se sentia triunfante, passou por nós e disse:

- Desculpem! Os senhores querem um café?

- Que isso, dissemos, não há porque se desculpar.

O que mais poderíamos dizer? Afinal ela nos mostrara, em poucos minutos, como detonar um empreendimento de sucesso; como expulsar da casa um chef competente, conceituado e amado de todos; como a idéia de ter “restauranteS Tompson” representava, de fato, um desejo apenas majestático.

Mais do que isso: aquelas senhoras nos proporcionaram o privilégio único de comer a última refeição do seu Pomodori antes da implosão. E libertaram Jeferson Rueda de compromissos protelatórios, acelerando seu novo projeto onde, espero, serei dos primeiros clientes e essa história será recordada entre gargalhadas.

Nunca antes tinha visto gente queimar dinheiro em cena aberta. Haja grana.

20 comentários:

falandoabobrinhas disse...

Este conto foi melhor que muita novela. Desejo sucesso ao Jefferson.

Alexandra Forbes disse...

Puxa que mundo pequeno, nem acredito. Acabo de ligar la querendo saber do Jeferson e o funcionario q atendeu disse que ele nao trabalhava mais ali. Foi quando contei a "descoberta" no Twitter para logo ser alertada da existencia desse seu post. Tristissima historia, grandissimo relato. abs, Alexandra

La cocinera atrevida disse...

É, ontem almoçamos no boteco da onça, sempre tão gostoso, e Jeferson estava lá, já com fotos sobre a mesa, se fotografando o casal de malas prontas, já em outra...
Nada como novos rumos, liberdade, imaginação e talento,
feliz ano novo, ainda dá pra desejar?
lourdes, la mulher guisandera

Notícias do mundo da cozinha disse...

Isso é que é estar no lugar certo na hora incerta...rs

Luciana Betenson disse...

A-do-rei este texto! Uma crônica de costumes. Deixei de ir ao Pomodori na semana passada pelos boatos de que o restaurante estava sendo vendido e já não tinha mais a mesmo 'consistência' de serviço e qualidade. Acabei indo ao Arola, do qual gostei bastante. Vamos acompanhar o Jeferson! Abraços,

Ala Blanca Fest Ehrenberg disse...

E eu, que achava que tais conflitos existem só no inframundo das artes plásticas!!! Coisa! rsrs... Pena que os artistas plásticos nao temos cronistas tao pontuais como seu Carlos, cujos textos acabam virando histôrica pura.
Felipe, o neologista

alhosepassas disse...

Dória,
uma tristeza.
Reclamo: Lezama não merecia fazer parte dessa cena. E, até onde enxergo, tampouco Rueda.
Tristeza mesmo.
Abraços!

Carlos Dória disse...

Alhos,
de fato foi uma cena traumatizante!! Nem Lezama Lima nem qualquer outro cronópio merecia a cena. Mas aconteceu. Difícil será esquecer. Nos resta ir ao Dna Onça encher a cara de Averna, Bráulio ou outros amargores assim.
Abraços

Breno Raigorodsky disse...

Gostei (sei que vc não vai postar, com sempre, mas vc fica sabendo que gostei)

Bi disse...

Para aqueles que presenciaram a cena ocorrida no restaurante Pomodori, ontem, e que só por aqui vieram a saber de parte dos fatos, lamento que não conheçam a história por completo. A renomada fama de Jefferson Rueda como excelente chef de cozinha, infelizmente, ao meu ver, não se estende fora dela, como ser humano e no trato com as pessoas que o cercam, que lhe deram apoio no passado.

Para quem não entende como a história do restaurante chegou a esse ponto, cito apenas o fato de Jefferson Rueda ter anunciado sua saída do Pomodori e a abertura de um novo restaurante publicamente, enquanto sua sócia não tinha conhecimento dos planos do “renomado chef de cozinha”.

Além dessa sua atitude colocar em questão o caráter de Jefferson, existe também a quebra de uma confiança que deveria ser mútua, além do respeito que deve haver entre as pessoas, afinal, sócias num empreendimento, pois entendo que ele não poderia ter comunicado à imprensa sua saída do restaurante, sem o consentimento ou, minimamente, sem o prévio aviso aos seus respectivos e outros sócios.

Se lá era tão ruim, porque lá ficou tantos anos? Será que foi para ganhar fama e renome?

A forma como a sócia Marina Thompson foi retratada, não faz jus a pessoa que ela é, tanto profissionalmente quanto pessoalmente, pois tive o prazer de conhecê-la.

Infelizmente, suas maiores qualidades podem ter comprometido a sociedade entre ela e Jefferson. Essa sua qualidade, chamamos de confiança, que se revelou inocência em confiar nos outros.

É lamentável que tudo tenha chegado a este ponto, mas tenho certeza que o futuro do restaurante é promissor, principalmente agora que certos obstáculos foram retirados do caminho de sucesso que o restaurante provou ter todos esses anos, com ajuda dele é claro, mas com o suporte de todos os demais que aguentaram o estrelismo e o esnobismo.

Desejo, também, sorte ao chef de cozinha em seus novos planos e que seus talentos culinários sejam suficientes para superar seus déficits empreendedores.

Carlos Dória disse...

Bi,
Eu não pretendi apresentar fatos, por inteiro ou parciais. Nem uma história por completo. Apenas relatei o absurdo de uma dona de restaurante, em conflito com o seu chef, tumultuar a vida dos clientes (no caso eu e meu amigo) e permitir que seus prepostos ajam da mesma maneira. Achava (e acho) inadmissível irromper à mesa e requisitar a atenção imediata de alguém, dizendo “estar com pressa”.
A cena culinária foi violada por quem deveria preserva-la (afinal é o VALOR que oferece aos clientes). Por isso disse que a proprietária promoveu a implosão do Pomodori.
Claro, ela poderá manter o nome, encontrar um substituto para o Jeferson e seguir em frente. Mas será sempre a pessoa que implodiu o Pomodori em cena aberta. Custaria esperar mais uma hora antes de se “acertar” com o Jeferson? Criou-se uma tensão insuportável na casa!!
Ela tinha razões legítimas para isso? Não sei. Sociedade é como casamento. Todo mundo tem razão e desrazão. Mas você nos assegura que Marina Tompson “não tinha conhecimento dos planos de Jeferson”. Será? E é tão importante assim? Acho que o que preside uma relação societária é o termo contratual. O que diz nele? Você o leu? Eu não conheço (nem quero). Seja como for, é nele que sócios impõem quarentena um ao outro; cláusulas de sigilo e duração, etc.
Você dizer que “ele não poderia ter comunicado à imprensa sua saída do restaurante, sem o consentimento ou, minimamente, sem o prévio aviso aos seus respectivos e outros sócios”, acho um exagero. Repito a questão: qual a quarentena imposta por contrato? Para mim, a ética (“poder”,” dever”, etc) é o cumprimento do contrato – seja qual for – e não um critério externo ao avençado entre sócios, mais adequado aos nossos valores de expectadores na condição de espectadores.
Abraços fraternos
Dória

Katia disse...

E o pessoal ainda tem coragem de fazer o que faz com a dona Marina Thompson ...
O Jefferson pode até ser um grande profissional, mais uma grande pessoa jamais, como ele pode falar em uma matéria de uma "tal" revista que não têm mais espaço pra crescer no Pomodori, sendo que lá ele cresceu profissionalmente ajudando ao mesmo a manter o nome de Chef Jefinho. Acho que ele deve seguir o caminho profissional dele e espero que na vida pessoal tenha o mesmo sucesso que na vida profissional.
Desejo sorte ao "tal" cujo o nome não é tão digestivo como suas comidas, que aliás seu nome vai precisar de um sal de frutas pra ser digerido.
E desejo sucesso a THOMPSON RESTAURANTE e a dona MARINA THOMPSON, no qual tenho grande admiração e grande respeito.

"Na vida temos que escolher entre o que é bom e o que é certo, a Thompson escolheu o certo"

Silvia Bohn Gonçalves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Dória disse...

Silvia,
achei muito feio o que vi. Se ela tem "algum motivo", perdeu a razão ali mesmo.
Mas não seja injusta com o Jeferson: "estar atrás do fogão cozinhando". Se você ler com cuidado, verá que era o que ele fazia quando foi intempestivamente interrompido por preposto da proprietária.

espressa-mente! disse...

é aquela velha questão de quem manda no navio..o dono do navio ou o comandante? aos tripulantes e passageiros so interessa que rumo se toma!

Anônimo disse...

Acho que esqueceram de mencionar a "pueira" que levantou quando ele saiu...

Anônimo disse...

dopo un ano, quasi un ano i mezzo, pomodori contiua a essere grandi como restauranti i sinonimo di buon cibo, cibo chi alimenta tutti noi chi amamo mangiare bene! Così posso dire soltanto che grazie dio, c´é un piccolo ristorantino in Itaim dove li mani trovano il cielo!

Eurico Luz disse...

Dava uma linda novela! Sucesso ao Cheff Jefferson no Attimo!

Anônimo disse...

Brasa dormida? ...novamente a senhora propriotária demonstrou carecer de fino trato e respeito com quem ainda sustenta o 'restaurantes Thompson'.
Resta saber até onde se sustentará um restaurante com tantos dissabores.

Unknown disse...

Adorei seu texto, e devido a alguns comentários, gostaria de muito de colocar minha opinião e conhecimento de tudo que é explanado nele.
Mesmo que de longe, vi o projeto POMODORI nascer, lembro-me do orgulho e satisfação que os três sócios fundadores tinham pelo projeto. Tudo foi muito bem pensado, a estrutura física, a decoração e o cardápio. Conheci a Marina, mesmo que de uma forma distante, sempre educada, fina e elegantes. Vi como a D. Marina lidou com devaneios e arrogâncias, mas ela não ajudou ao POMODORI a ser o que é e sim, Jefferson e Rodrigo.
Conheço o Jefferson (ou Jeffinho) desde que tínhamos 5 ou 6 anos de idade, vi ele crescer como pessoa, vi ele crescer como profissional, foi com ele que descobri que a alta gastronomia tem a assinatura do seu Cheff, que cada prato é único e é o cartão de visita de quem o prepara, de quem o desenvolveu. É obvio, que a saída dele, não caiu a qualidade dos pratos do POMODORI, afinal tem muitos Cheff’s competentes no mercado, mas quem ia lá, não era pelo “três tomatinhos” nem pelo quadro do Gustavo Rosa na parede e sim apreciar uma obra de arte feita por um artista nato.
É obvio, que o tratamento a funcionários e em alguns caso até com os clientes, não era de um lorde, mas eu que fui subordinado a ele, não posso e não devo julgá-lo. E acredito que não devemos julgar a vida pessoal de ninguém, pois ele é um homem de caráter e tem estrutura suficiente para ser um bom marido, um ótimo pai e um cidadão coerente. Sim, ele é uma estrela em ascensão e pode até agir como tal, mas tais palavras me soa como recalque.
Não venho aqui, fazer juízo de valores sobre os motivos e se foi da maneira correta ou não a saída dele do POMODORI, pois como citado pelo autor do texto, não conheço o contrato (e nem quero). Mas tenho certeza que apesar de todo o sucesso que ele faz a frente do ATTIMO e que todo o sucesso que o POMODORI continua tendo (acredito eu), este é um relacionamento que deixa saudades a ambos e principalmente para seus clientes, que sentem saudade daquele espaço gostoso, aconchegante com uma comida Italiana sensacional e única.

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